segunda-feira, 16 de maio de 2016

As escutas de Mia Couto

Em 2014, tive o privilégio de fazer uma entrevista com o escritor Mia Couto. Foi a única que ele concedeu a um jornalista naquela rápida passagem por São Paulo – na qual, entre outros compromissos, deu uma palestra no Projeto Fronteiras do Pensamento (a quem sou grato pela oportunidade de intermediar esse encontro).
A entrevista, uma das grandes alegrias que a profissão me proporcionou, foi publicada pela revista Brasileiros em novembro daquele ano.

A seguir, a íntegra da entrevista:



As escutas de Mia Couto


Trabalhando em um novo romance, o autor premiado de Terra sonâmbula, entre outros, fala de uma África plural e revela que faz pare “da pequena tribo dos contadores de histórias”


Por Paulo Hebmüller
Revista Brasileiros nº 88 – Novembro de 2014


É das coisas humanas, demasiadamente humanas, que fala Mia Couto. Da importância, por exemplo, de os pais contarem histórias a seus filhos, gerando um espaço “produtor de nossa própria humanidade”, que “cria uma relação interpessoal e uma capacidade de estarmos juntos e de sermos outros”. Ou do alerta para o fato de que, na cacofonia de vozes da atualidade, estamos deixando de ouvir uns aos outros. Ou ainda de postular que escutar árvores e animais, aprendendo também sobre a relação simbiótica que temos com bactérias e micro-organismos em nosso corpo, são práticas que nos fariam menos presunçosos em relação aos semelhantes e ao papel de nossa espécie no planeta. O alarmante talvez seja constatar que, ditas assim, com a simplicidade que de fato possuem, essas coisas já pareçam tão inusitadas e sem lugar em nosso cotidiano.


Foto: Renato Parada
Brasileiros – Antes de falar do processo de escrita, gostaria de perguntar sobre o seu processo de escuta. De que forma o senhor começou a escutar essa oralidade, que depois transpôs para a palavra escrita?
Mia Couto – Começou em casa, quando começa tudo. Havia ali essa tentação de escutar e vivia-se em um ambiente de histórias. Meus pais, sendo imigrantes portugueses, eram contadores de histórias e sofriam daquele mal da saudade, então tinham de reinventar o país que deixaram. As primeiras grandes viagens que fiz foi por meio da escuta dessa narração. Também havia outra coisa: eu era o que ficava calado, os meus irmãos falavam. Digamos que percebi que havia quase uma repartição de funções. Cabia a mim escutar, e isso foi uma grande escola.


E quando o senhor começou a achar que era hora de transpor essas vozes – também aquelas para além da sua casa – para a escrita?
Essa África onde eu vivo é uma sociedade que escuta. As pessoas escutam os outros e na conversa há uma distribuição de tempos: o tempo da fala e o tempo da escuta, como se por turnos as pessoas soubessem o que têm de fazer. Acho que houve um momento em que eu, já jornalista, fui tentado a escrever as histórias que escutava. Essas histórias estavam tão vivas, tinham tanta força, que pediam que fossem transportadas dessa oralidade para a escrita. Mas aí percebi que a própria escrita tinha de mudar. Aquela que eu sabia e reconhecia não acomodava essa riqueza, essa coloração e, sobretudo, a música, a prosódia. Comecei a procura de uma escrita que fosse plástica e permitisse essa inundação da oralidade. Fiz um primeiro livro (Vozes Anoitecidas, 1987) já muito influenciado por um angolano chamado Luandino Vieira, que abriu portas à oralidade da sua cidade, Luanda, e li uma entrevista em que ele fazia referência à influência de João Guimarães Rosa em seu trabalho. Então, fui à procura de Guimarães Rosa. Nos meus livros seguintes, como Estórias Abensonhadas (1994), já tive esse encontro, que realmente foi importante porque havia ali uma legitimação: é possível fazer isso, é possível deixar entrar essas vozes.

Em um texto de E se Obama fosse Africano? (ensaios, 2011), o senhor conta de um ancião que lhe diz: “A diferença entre nós não está no que falamos. A diferença está em que eu sei ficar calado em português e o senhor não sabe ficar calado em nenhuma língua”. A sua escuta é também desse silêncio?
Sim, sobretudo é isso. Há uma aprendizagem que essa sociedade mais rural nos confere porque na cidade ficamos atrapalhados quando há um silêncio, e é preciso recobri-lo. Esse incômodo, em contraste, não é vivido nessas sociedades. As pessoas têm no silêncio uma espécie não de ausência, mas de uma presença. Alguma coisa está a ser falada naquele momento. Isso tem a ver com uma forte crença no mundo invisível e de espiritualidade que rodeia os viventes.

Alguns dos seus livros anteriores, especialmente de contos, têm sido publicados recentemente no Brasil. O senhor relê esses textos? E o que reconhece de si mesmo neles?
Essa é uma boa pergunta… Em princípio, não releio. Eu reescrevo tanto que aquilo fica quase saturado. Depois, preciso fazer uma ruptura e, se regresso a esses personagens, eles vão me convocar e nunca mais sair. Só faço isso quando compelido – por exemplo, por causa de reuniões em escolas que estão a estudar algum texto. Reencontro, às vezes, coisas que me parecem um bocado ingênuas, adolescentes. Havia aquela tentação inicial de querer dizer tudo num livro… Acho que houve depois um caminho de contenção. Percebo como um período em que quis dizer certa coisa, quis me confrontar com um certo mundo, e agora apetece-me fazer outras coisas. Acontece também que, às vezes, as pessoas querem me dizer algo imaginando que eu sou alguém que elas construíram na sua cabeça. A relação com a escrita faz projetar essa imagem do autor. Não quero usurpar esse território de respeito que tenho, e as pessoas têm de entender que fiz aquilo quando, digamos, era outro.

O senhor disse recentemente que estão nos contando narrativas do mundo que nos ensinam a ter medo do outro. As manifestações racistas, como as que ocorrem nos estádios de futebol, são parte dessa dificuldade de ir ao outro e entendê-lo?
Acho que sim. O racismo é um fenômeno difícil de entender porque tem vários componentes. Há vários racismos e várias maneiras de ser racista. Uma das coisas que complicam a luta contra o racismo é que a própria proposta de saída está viciada, porque se fala em raça como se fosse algo que legitimasse esse conceito e essa ideia e, portanto, se tenta provar que uma raça não é inferior e merece tanto respeito como qualquer outra. É necessário fazer esse discurso, mas ele consolida certa ideia de raça. Não é a raça que criou o racismo. É o racismo que inventa a raça. Quando jogamos todas as nossas cartas nessa lógica, fica complicado. E depois há um medo: hoje as pessoas precisam ter uma tribo, uma ideia de coletividade, de refúgio e de fortaleza. Então, é muito fácil a pessoa aderir a um discurso em que se cria outro, que é um fantasma, uma ameaça responsável pelo seu mal-estar. Se não for o racismo, é outra coisa qualquer. Paradoxalmente, a invenção desse inimigo torna a pessoa mais segura, porque não é tanto o inimigo que ela quer inventar, mas o seu grupo e aquilo que é o seu parentesco com outros.

Quando fez sua conferência no Fronteiras do Pensamento, Edgar Morin disse que a poesia da vida é mais importante que a felicidade. O senhor concorda? Acha que falta poesia no mundo?
Provavelmente a felicidade implica sempre uma poesia do mundo. Não sei o contexto dessa frase, mas dita assim parece que há uma dicotomia entre felicidade e poesia. Não vejo outra maneira de reconquistarmos um sentido de felicidade que seja pleno, que não vá por esse caminho de nos restituir um olhar poético. O olhar poético não é alguma coisa que tenha a ver com a poesia escrita ou como gênero literário, mas tem a ver com aceitarmos que essa linguagem dos sonhos é uma linguagem válida, que nos ajuda a ler o mundo.

O senhor também falou nesse encontro em memória e, em muitos livros, ela é a base para levar o leitor a diferentes caminhos. Em Quase Memória, por exemplo, Carlos Heitor Cony diz que a memória é cúmplice, não testemunha. Julian Barnes, em O Sentido de um Fim, escreve sobre como “editamos espertamente” nossas memórias, embelezando-as e ajustando-as ao longo do tempo. “Nossa vida não é a nossa vida, mas apenas a história que nós contamos da nossa vida”, ele escreve. O senhor concorda com essas visões?
É uma maneira muito feliz de dizer aquilo que tentei dizer. De fato, temos essa visão ilusória de que a memória é alguma coisa que faz parte da natureza e, portanto, tem a capacidade de reconstituir uma relação objetiva com o passado. Na verdade, sempre reescrevemos, selecionamos e reelaboramos esse tempo. Nesse sentido, o passado é a coisa mais recente que existe, porque está sendo sempre reatualizado. A veneração por uma memória que fosse capaz de trazer de volta um passado fixo e definitivo tem a ver com a ideia linear do tempo e de que temos de ter certezas do passado, como se, ao não ter essas certezas, não tivéssemos chão para construir o presente nem o futuro – o que é um conforto muito desconfortável.

E que não dá chão nenhum…
Não dá… Uma coisa de que já fujo são esses reencontros de colegas da escola secundária, etc. Aquilo é algo tristíssimo, quase uma espécie de velório antecipado de nós próprios. Cada um esquece de maneira díspar e, quando se lembra, também se percebe que cada um produziu a sua própria mentira. É melhor não ir nunca (risos).

O senhor também mencionou o perigo de entregar a máquinas, como televisão, computadores e tablets, a tarefa de contar histórias às crianças. Por que isso é perigoso e como reencontrar o tempo para contar histórias?
Acho que é perigoso porque esse contar de histórias não é simplesmente uma transmissão de alguma coisa que já está feita. No momento em que se conta a história a alguém, não há ali uma escuta mecânica, mas sim qualquer coisa que cria, sobretudo, a construção de uma relação entre pessoas e, obviamente, a máquina não pode fazer isso. A construção dessa relação interpessoal e do apetite por ela marca: é como se a história existisse só para criar essa rede, essa capacidade de estarmos juntos, de escutarmos, de sermos outros. Claro, há um momento em que a máquina pode estar ligada e cumpre a função de “anestesiar” a criança, mas falo é da ausência do resto. A máquina passa a ser a exclusiva ligação com a fantasia, e a criança é colocada desde o princípio só como consumidora de uma imagem que já está feita em definitivo e ela pode voltar e ver da mesma maneira mil vezes. Mas quando ela pede ao pai, à mãe ou a alguém que lhe conte a história, ela nunca é repetida completamente. Há ali uma recriação, e a criança percebe que esse momento a torna também criadora.

Outra característica da sua obra é a presença dos mortos em meio aos vivos – para citar apenas um caso, há a comunicação entre Marianinho e seu avô em Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, no qual o senhor fala, entre outras coisas, em “falecido com dificuldade de transitação, encravado na fronteira entre os mundos” e em “fantasmas mal morridos”. Como é essa relação entre vivos e mortos nesse mundo que descreve?
É uma relação marcada pela ideia de um tempo circular, em que os mortos não chegam nunca a morrer. Mas acho que em nenhuma cultura e em nenhuma religião os mortos morrem completamente, portanto isso não é uma coisa exclusiva da África. Provavelmente, a diferença da cosmogonia africana é que esses mortos não só não morrem como estão presentes no comando da vida e no comando do mundo. Essa relação nem sequer é mediada por uma força divina ou outra, porque esses mortos são os próprios deuses. Então, não temos de usar um discurso codificado ou uma reza para enviar uma mensagem para um rosto ou uma entidade que não conhecemos. Conversa-se com os mortos, ou seja, conversa-se com os deuses. Quando se fala do lugar da escrita dos africanos e se compara automaticamente com os latino-americanos nos termos do “realismo mágico” – não gosto muito dessa classificação –, a diferença é referida sobretudo em relação ao lugar dos mortos. Na América Latina, o discurso é muito católico – revisitado, reconstruído, etc. –, mas na África não é tanto isso.

Em relação à dimensão do sagrado, do divino e do religioso, também muito presente na sua obra, o senhor se define como “ateu não praticante”. Como se aproxima dessa dimensão?
É um percurso que estou a fazer interiormente. Meu pai era ateu e minha mãe, católica muito pouco praticante. Eu militei na causa marxista, portanto com fundamento no materialismo histórico e dialético – uma filosofia que não dava espaço a esse tipo de crença. Mas percebi que teria de estar disponível e aberto a fazer essa viagem e não ter uma relação de arrogância em que na partida já saberia o que estava ou não do lado do não visível. Portanto, me defino um ateu não praticante do ponto de vista de que não parto com o juízo feito para as coisas. Estou disponível e gosto de fazer essa viagem, mas não é que tenha crença num ou noutro lado. Apetece-me ter crenças que são imediatas e que me ajudam a cumprir certo momento.

É uma espécie de ponte para o entendimento daquele contexto?
É uma espécie de nomadismo religioso em que monto uma tenda, seja no deserto, seja no meio do oceano.

Religiosidade e outros traços culturais e históricos aproximam nossos países, mas a relação entre Brasil e África tradicionalmente não é de proximidade. Essa distância, especialmente em relação aos países africanos de língua portuguesa, está diminuindo?
Do setor que mais conheço, o das trocas literárias, o Brasil hoje está muito mais aberto a receber e publicar autores africanos. Recordo-me que há uns 20 anos nem sequer se pensava em publicar aqui um livro moçambicano. Portanto, isso mudou. Mas a recíproca não é verdadeira. Os países africanos não conhecem quase nada do que está a acontecer na escrita literária do Brasil, e Portugal desconhece também quase completamente. Acho que a razão para isso tem a ver com a dinâmica das editoras. Esse assunto foi entregue ao mercado, e os governos praticamente desistiram de ter algum papel. Como a dinâmica do mercado no Brasil é muito maior do que em qualquer país de língua portuguesa, obviamente os brasileiros conhecem mais o que se faz do outro lado.

Entre as suas identidades está a de biólogo, e o senhor já classificou a biologia como uma “indisciplina científica”. Como essa identidade entra em sua literatura?
De uma forma que é absolutamente vital. Está onipresente aquilo que a biologia me entrega como uma linguagem e uma maneira de escutar. A biologia prolongou esse apetite que tenho de escutar o mundo e de perceber que há ali vozes que tinham sido anuladas por certa visão antropocêntrica de que somos nós os únicos que temos alguma coisa a dizer. A maneira como abracei a biologia foi nessa procura de perceber linguagens e aprender códigos. Hoje, sem ser de uma maneira metafórica, escuto a árvore, a planta, o bicho, porque de fato todas essas entidades querem dizer qualquer coisa além, não é? E por isso assumem cores e cheiros e diferenças de forma que me agrada muito escutar.

Tudo isso tem uma presença fortíssima no seu romance A Confissão da Leoa.
Sim, até o ponto limite de se perceber que a diferença de identidade entre nós e essas outras criaturas é mais tênue do que se pode pensar.

A literatura pode ser uma ponte para nos ajudar a refazer esses encontros também do ponto de vista da natureza?
Sem dúvida. Assim como a biologia, porque é também uma narrativa que tem feito descobertas que deviam ser mais conhecidas nessa educação para nos ajudar a descentrar-nos de nós próprios. Por exemplo, as recentes descobertas genéticas que mostram o quanto temos de não humano, o quanto de nosso material genético não é exatamente humano, o quanto da nossa composição celular e da constituição física devemos a outros que estão dentro de nós, e que não são tão outros assim, porque, se os tirássemos, morreríamos em segundos… Dizemos que essas bactérias e esse mundo de micro-organismos são meros hospedeiros que estão dentro de nós. Mas percebermos que eles não são simplesmente hospedeiros, são de tal maneira simbióticos que nós somos eles, é uma espécie de cambalhota e de reviravolta do ponto de vista quase filosófico na maneira que apreendemos o mundo. Isso é alguma coisa que faz muito bem a qualquer racista (risos).

Nos ajudaria a ser mais humildes, pelo menos…
Sim, é uma aprendizagem de humildade. O discurso mais verde e mais ecologista aponta para a responsabilidade do homem como grande espécie condutora de tudo isso. Porém, há qualquer coisa que é mais radical que isso: perceber que só reencontraremos esse papel se vermos que somos apenas uma parte.

Por que a escolha por esse caminho chamado literatura?
Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura. Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a” literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo… Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar (risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita. 



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