sexta-feira, 12 de maio de 2017

Graciliano segundo Candido


Paulo Hebmüller 
(Jornal da USP nº 942, 24 a 30 de outubro de 2011)

Comemorando os 75 anos de lançamento de Angústia, a Editora Record promoveu em diversas capitais do País um simpósio sobre Graciliano Ramos e sua obra. O ciclo foi aberto no final de setembro com uma conferência de Antonio Candido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Na abertura, Candido salientou que daria “um depoimento pessoal, muito singelo”, de como conheceu a obra de Graciliano e se familiarizou com ela, ressaltando que já era um adolescente leitor na época em que o escritor começou a publicar. Leia a seguir trechos da conferência do Professor Emérito da FFLCH (a íntegra da palestra está disponível em vídeo aqui):


Antonio Candido em evento na USP (foto de Francisco Emolo)

“Graciliano Ramos atuou em um dos momentos mais ricos da literatura brasileiro, e me pergunto se não foi o momento mais rico da literatura brasileira, mais ou menos entre 1920 e 1960. O Modernismo da década de 1920 e o que vem depois dele são dois momentos bem diferentes do ponto de vista do destino das obras. O Modernismo passou muito despercebido naquele tempo. Foi um movimento pequeno, de uma elite intelectual – de grande importância histórica, mas sem muita repercussão.
Depois de 30, quando Graciliano Ramos publicou, o Brasil tinha virado. Há uma certa tendência dentro da historiografia de menoscabar a importância do movimento revolucionário de 1930, mas o Brasil mudou. Do ponto de vista de difusão da literatura, a coisa aumentou extraordinariamente. Houve surtos editoriais muito importantes, sobretudo em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, de modo que os que escreviam depois de 30 puderam ter as suas obras recebidas por um público muito maior, também com maior impacto.
Minha impressão é que essa literatura ficcional serviu para fazer conhecer o Brasil. O País era muito disperso, não se conhecia, e os brasileiros não se comunicavam. O segundo aspecto é que esse romance me aproximou do pobre e do desvalido. Até então os romances que me caíam nas mãos eram sobretudo da vida urbana ou regionalistas de cunho pitoresco. Foi a primeira vez que li romances sobre a vida do negro, do trabalhador do cacau, do jagunço, de modo que para a minha geração esses romancistas tiveram também uma grande função de radicalidade. Foi o momento histórico que levou a isso, com as classes sociais sacudidas, a decadência das oligarquias e a entrada do operário na vida política. Nesse período é que surge o nosso Graciliano Ramos.”

Uma estudante 

“Havia muitos escritores do chamado ‘romance do Nordeste’. Mas lembro que minha impressão é que Graciliano ia subindo e se destacando, até que num certo momento cheguei à conclusão, como muita gente chegou, que ele era o grande escritor daquele momento. Meu romance predileto foi sempre São Bernardo. Penso que o li no mínimo umas vinte vezes. Eu o leio até hoje. Vidas secas é outra obra-prima, escrito com uma técnica completamente diferente, uma técnica de retábulo.
Quando li Angústia, estranhei um pouco. Aquele escritor seco, contido, estava muito abundante, um pouco ‘gorduroso’. Por último li Caetés, que é o seu primeiro romance. Caetés me pareceu bom, mas inferior aos outros. Mas continuei lendo e acabei gostando dele tanto quanto os outros, e devo isso a uma estudante. Orientei uma estudante venezuelana que fez uma bela tese sobre Graciliano Ramos. Uma vez eu disse que achava Caetés mais fraco, e ela me falou: ‘o senhor está inteiramente enganado, professor. É um grande livro’. Tomei um susto e fui relê-lo. Não é que a venezuelana tinha razão? Sempre aprendi muito com os estudantes, e aprendi a finalmente ler direito Caetés graças a essa aluna.
Quando saiu Infância, o Graciliano Ramos me mandou o livro, com dedicatória. Nesse momento, em 1945, eu era crítico titular – o representante do jornal em literatura, uma profissão de alto risco – do jornal Diário de S. Paulo. Fiquei deslumbrado e pensei: bom, realmente agora é a hora de escrever sobre Graciliano. Reli cuidadosamente os quatro romances e fiz um rodapé para cada um. Foram cinco rodapés no segundo semestre de 45, quando Graciliano já era considerado um autor supremo. Publiquei esses artigos e ele me escreveu uma carta muito interessante.
Em 1947, fui ao Rio de Janeiro com minha mulher e lá o Otávio Tarquínio de Sousa e a Lúcia Miguel Pereira me disseram que o Graciliano, que era amigo deles, tinha vontade de me conhecer. Eles deram um jantar na casa deles e lá eu conversei com Graciliano. Tive a impressão de um homem de pouca fala, muito bem educado e de extraordinária distinção, dessas pessoas que se impõem. Ele estava escrevendo Memórias do Cárcere. Conversamos sobre Memórias e ele falou da grande experiência de vida que estava tendo. Foi a única vez que eu o vi.
Também em 1947 saiu a primeira edição uniforme da obra dele, com uma longa introdução de Floriano Gonçalves, e Graciliano me mandou todos os volumes com dedicatória. De Caetés, por exemplo: ‘Antonio Candido, a culpa não é só minha, é também sua. Se não existisse aquele seu rodapé, talvez não se reeditasse isso’. Isso! Em Angústia: ‘além das partes rudes, já corrompidas, vão aqui alguns erros e pastéis, que as tipografias andam uma lástima’. Em Insônia: ‘A Antonio Candido, esta coleção de encrencas, algumas bem chinfrins’.”

Obrigado, professor (foto de Francisco Emolo)

Honra 

"Depois da morte dele, em 1953, fui chamado ao escritório do editor José Olympio, em São Paulo, e tive a surpresa de me falarem que Graciliano dissera que queria que a próxima edição das obras dele tivesse uma introdução minha. Fiquei honradíssimo, foi uma das coisas mais honrosas que aconteceram na minha vida. Retomei os artigos, reelaborei, escrevi sobre Memórias do Cárcere e fiz a introdução, um artigo longo, ao qual dei o nome de ‘Ficção e confissão’.
Graciliano era um militante muito ativo do Partido Comunista Brasileiro, e eu era militante do Partido Socialista. Os dois não se gostavam. Quem é de esquerda sabe que as tensões mais graves são dentro da própria esquerda. A esquerda às vezes se odeia mais do que odeia a direita. Os comunistas alemães não quiseram se aliar aos socialistas, nem os socialistas aos comunistas, e Hitler foi para o poder. Essas tragédias acontecem. Por isso é notável Graciliano ter me escolhido. Era um homem de uma integridade e de uma independência que, sem prejuízo das convicções e da firmeza da militância, pairava acima disso.”


terça-feira, 9 de maio de 2017

Moacyr Scliar, 80

Conversei algumas vezes por telefone com Moacyr Scliar quando trabalhava em Porto Alegre, mas só o encontrei pessoalmente para uma entrevista no final de 2003, em São Paulo. Ele daria uma palestra no Centro da Cultura Judaica (hoje Unibes Cultural), na rua Oscar Freire, onde marcamos a conversa. Por coincidência, chegamos juntos e me apresentei enquanto passávamos pelos complicados procedimentos de segurança na entrada.
Scliar completaria 80 anos neste 2017. O escritor morreu em fevereiro de 2011, às vésperas do 74º aniversário. Vários eventos têm celebrado as suas oito décadas de nascimento. Em São Paulo, será lançado o livro A nossa frágil condição humana, reunião de crônicas do autor, com debate e leitura de textos pela atriz Ilana Kaplan: nesta quinta, 11 de maio, às 19h30 na Livraria da Vila dos Jardins (Alameda Lorena, 1731).



Para marcar a data e lembrar esse encontro, republico a entrevista que saiu no Jornal da USP no começo de 2004:


As vivências de Moacyr Scliar



Entrevista a Paulo Hebmüller 
Jornal da USP, edição 671, 12 a 18 de janeiro de 2004


Moacyr Scliar está entre os escritores mais prolíficos e conhecidos da literatura nacional. Sua trajetória começou ainda nos tempos de estudante de medicina, no início dos anos 60, quando publicou Histórias de médico em formação, que depois consideraria apenas um arroubo de principiante. Com O carnaval dos animais, de 1968, ganhou um prêmio e o reconhecimento da crítica. De lá para cá, tem publicado dezenas de títulos de ficção, ensaios, história (principalmente da medicina) e literatura infanto-juvenil. Nascido em Porto Alegre, filho de imigrantes judeus que vieram da Rússia praticamente sem nada, Scliar criou-se ouvindo muitas histórias e convivendo intensamente com outras famílias da mesma origem. Como médico, trabalhou na Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul e ainda hoje dá aulas de Saúde Pública na Faculdade Federal de Ciências Médicas, em Porto Alegre. Seu romance O centauro no jardim (de 1980) foi incluído na lista dos cem melhores livros de temática judaica dos últimos duzentos anos, preparada por um júri constituído pelo National Yidish Book Center, dos Estados Unidos. O escritor, de 66 anos, que em outubro assumiu a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras, concedeu com exclusividade a seguinte entrevista ao Jornal da USP, em recente passagem por São Paulo.


Moacyr Scliar em foto de Adriana Franciosi
O senhor afirmou certa vez: “Até hoje suspeito que escrevo apenas para merecer o sorriso de aprovação da minha gente, da gente do bairro, da minha cidade, do meu país”. A eleição para a Academia Brasileira de Letras é uma espécie de coroamento disso?
Moacyr Scliar – É, aí é o sorriso de aprovação do Rio Grande do Sul também. A minha candidatura não nasceu de uma aspiração pessoal, nem era uma coisa que eu viesse cultivando. Ela nasceu de instituições do Rio Grande do Sul, começando pela Associação Rio-grandense de Imprensa e continuando com a Assembleia Legislativa, universidades, colégios e principalmente gente que se engajou naquilo que acabou se configurando como uma campanha, o que, pelo que sei, é uma raridade na história da Academia. Isso se deve em primeiro lugar a essa conjuntura emocional tão própria do Rio Grande do Sul, que é um estado de paixões, um estado que tem causas. Anos atrás, os gaúchos receberam com desgosto a não eleição de Mario Quintana em duas ocasiões. Na minha eleição houve um júbilo e uma celebração muito grandes e eu fiquei muito contente com isso. As pessoas têm direito a festa, e essa eleição foi basicamente uma festa gaúcha.

Qual é a influência do humor judaico na sua literatura?
Scliar – Sou fascinado pelo humor judaico, e não como uma aproximação intelectual. Isso faz parte da minha biografia, porque era um componente da nossa vida no Bom Fim (bairro que concentra os imigrantes judeus em Porto Alegre), e meus pais eram grandes contadores de histórias. Esse humor nunca é escrachado, não é para provocar gargalhadas, mas é basicamente melancólico. É muito claro o mecanismo psicológico que está por trás dele: funciona como uma forma de defesa, uma maneira de evitar o desespero que foi uma característica de um grupo humano muito perseguido. O humor judaico é um fenômeno de uma determinada época e está associado basicamente a uma fase da história do judaísmo na Europa Oriental, em países como Rússia, Polônia e Lituânia. Quando comecei a ler os autores judaicos, que escreviam em iídiche – um idioma que se presta muito a isso –, me surpreendia exatamente esse humor fascinante. Inevitavelmente sofri essa influência e não consigo pensar num texto literário que não tenha humor. Isso é uma coisa pela qual até se pode pagar um certo preço porque, quando se diz que um escritor tem humor, as pessoas frequentemente o interpretam como um escritor não sério. O rótulo de humorista não combina com o de escritor, e o exemplo mais flagrante é Luis Fernando Verissimo, que durante anos foi rotulado como humorista, quando na verdade é um dos mais notáveis escritores da nossa literatura.

A religião sempre desempenhou um papel central para o povo judeu. Como o senhor, que não é religioso, se relaciona com a dimensão do sagrado?
Scliar – A esta altura da minha vida – que é o período da maturidade, para usar um termo benigno –, a minha relação para com as pessoas religiosas é uma atitude de compreensão e de tolerância. Não sou crente, não pratico os rituais da religião, é uma experiência humana da qual não participo, mas entendo que para muitas pessoas ela seja um amparo emocional importante. Como médico, sei que as pessoas que têm crença religiosa se saem melhor de uma doença ou de uma situação traumática do que as pessoas não religiosas. A religião também ajuda muito quando da morte de uma pessoa querida, por exemplo. Trabalhei na Santa Casa de Porto Alegre e sei que chega um momento em que o médico não tem mais o que fazer. É o momento de o padre ajudar a pessoa nos seus instantes finais, e isso é uma coisa que qualquer médico reconhece. Agora, faço uma restrição ao seguinte: há um grande problema quando alguém quer fazer os outros praticarem a mesma coisa, obrigando-os a acreditar naquilo em que não acreditam. Essa é a raiz do fundamentalismo, do qual o judaísmo não está isento.

O senhor chegou a ter alguma experiência religiosa marcante?

Scliar – Tive uma experiência interessante, do ponto de vista emocional, quando estive pela primeira vez em Israel. Fui fazer um curso de medicina comunitária numa pequena cidade e num final de semana aproveitamos para visitar Jerusalém. Foi em 1970, logo depois da Guerra dos Seis Dias. Nós chegamos no final da tarde, com aquela luz do crepúsculo, e o clima ali, junto ao Muro das Lamentações, era uma coisa mágica, mística. De repente eu me senti parte de uma história. Essa foi uma experiência que me emocionou, mas não consigo ser tocado por aquilo que os crentes chamam de graça divina. 

O escritor retratado pelo filho, Beto Scliar


O senhor escreve sobre temas que vão da história das “prostitutas polacas” à vida de Oswaldo Cruz ou à história da melancolia. Como eles surgem?
Scliar – Os meus temas vão surgindo dependendo das vivências. O das polacas (tema do romance O ciclo das águas, de 1975) surgiu porque eu era médico no Lar dos Velhos da Comunidade Israelita e lá atendi uma dessas mulheres. Fiquei fascinado com essa história de jovens que eram trazidas da Europa Oriental para serem prostitutas na América, e fui pesquisá-la. A origem de Saturno nos trópicos (de 2003) é outra. Sou um apaixonado pela história da medicina e lá pelas tantas comecei a ler sobre a melancolia, que é um conceito que surge na antiguidade grega. Sempre me intrigou o fato de que o conceito então desaparece e vai reaparecer no começo da modernidade. A pergunta que me fiz é: por que se fala tanto em melancolia quando começa esta fase que estamos vivendo? A minha tese é que a modernidade nasce bipolar: ela nasce maníaca – uma mania de riqueza, de luxo, de grandeza – e alternadamente cai em surtos melancólicos. Uma coisa tende a neutralizar a outra.

E os temas da ficção?
Scliar – Brotam da inspiração: é quando uma ideia te galvaniza e provoca uma reação até visceral. Hemingway costumava dizer que sabia que a ideia era boa quando ele ficava arrepiado. Quando o teu corpo diz que a ideia é boa, é porque ela é boa.

Como o senhor analisa a questão do Oriente Médio hoje?
Scliar – Vejo com extrema preocupação. Acho que só a paz vai ser a solução, mas há dois obstáculos violentos para ela. O primeiro é o terrorismo, que resulta na matança de pessoas inocentes. O segundo é a ocupação de territórios. Parece que chegamos hoje a um impasse e não se sabe para onde isso vai evoluir. O que reforça a confiança é que sempre há pessoas de ambos os lados se associando pela causa da paz. 
  

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Belchior: “Fazer música é produzir um objeto explosivo”

(Entrevista a Paulo Hebmüller, jornal RS, Porto Alegre, edição 322, 14/15 de novembro de 1992)





Nascido na cearense Sobral em 1946, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes apresentava-se regularmente em Porto Alegre desde os trinta anos de idade, como conta nesta entrevista.
Assisti a alguns de seus shows na cidade – especialmente no saudoso Teatro da OSPA, na Independência. Numa dessas passagens, em 1992, entrevistei-o para o RS, semanário criado por Sergio Jockymann, à época já desligado do jornal.
Ao saber da morte de Belchior, no domingo 30 de abril, lembrei de procurar esse registro. Para trazê-lo à luz no mundo virtual, foi preciso redigitar o texto, porque o original pertencia àquela era remota das laudas e da máquina de escrever (era uma tecnologia em que se “imprimia” ao mesmo tempo em que se digitava, crianças – procurem na internet).
A entrevista é aberta com questões sobre o cenário político brasileiro (que Belchior define como “situação política e socialmente caótica”), naquele ano das manifestações que pediam a cabeça do presidente Fernando Collor – então já derrubado e substituído pelo seu vice, Itamar Franco. Todo esse processo, acreditava, fazia com que nos defrontássemos com “o Brasil real, um país pobre, violento, de Terceiro Mundo, faminto, analfabeto e que precisa definitivamente optar pela cultura e pela civilização”.
Para situar questões específicas da época, adicionei alguns comentários no final (as referências estão indicadas por números). Excluí o texto de abertura, bastante datado, limpei uma ou outra gralha de revisão e fiz umas poucas atualizações de acordo com a última reforma ortográfica.
A conversa não trata apenas de política, claro. Belchior fala também de música, de poesia, de sua formação, de suas utopias. Estava com 46 anos, e ainda distante da ruptura da última década de vida, quando abandonou carreira, projetos, família, a pintura, os palcos, a cena pública. “Tenho fé no presente e esperança no futuro”, me disse.
A seguir, a entrevista:

  

Parte da primeira página da entrevista no RS

A juventude e as questões ligadas a ela sempre foram temas constantes na tua música. Como tu vês a juventude brasileira que voltou a sair à rua e ter experiências políticas?
Belchior – A mocidade, a rapaziada brasileira estar na rua de novo é um fenômeno importantíssimo, de alcance político da maior importância. E isso não só porque é a primeira manifestação de massa depois de tanto tempo, como também porque ela foi feita em boa hora e por uma causa justa. Mais uma vez ficou provado que a juventude brasileira não é alienada – talvez estivesse só à espera de uma boa oportunidade para se manifestar. Agora, é bom dizer também que o Brasil dos caras pintadas ao mesmo tempo é o Brasil dos meninos de rua assassinados, da revolta da Febem em São Paulo, da infância abandonada, que também são manifestações da juventude brasileira. Isso tudo prova a situação política e socialmente caótica que o Brasil está vivendo. (1)

Uma das músicas mais cantadas nas ruas foi “Como nossos pais”.
Belchior – Pois é. Claro que o meu trabalho, por ser um trabalho geracional, sempre esteve ocupado desses fenômenos, tentando transformá-lo em linguagem, em poesia, Neste momento acho importantíssimo dizer que o Brasil precisa perder qualquer ufanismo. Precisamos perder qualquer resto de ufanismo: esta ideia barata de que o Brasil é o maior país do mundo, o melhor futebol do mundo, que não temos vulcões, não temos terremotos. Estamos passando por um processo de degradação das instituições e da sociedade como nunca visto. Este momento está sendo bastante medicinal, porque estamos nos defrontando com o Brasil real, um país pobre, violento, de Terceiro Mundo, faminto, analfabeto e que precisa definitivamente optar pela cultura e pela civilização. Não podemos mais continuar vivendo dentro de estereótipos sem sentido histórico e sem enfrentar os problemas com realismo. A solução, depois de tudo isso, passa definitivamente pela democracia – é preciso abandonar qualquer ideia autoritária.

Falando de música: onde estão os novos intérpretes da MPB? Não existe um vácuo entre a tua geração e a de hoje, depois que a explosão do rock parece já ter dado o que tinha pra dar? (2)
Belchior – A música popular brasileira não está em crise de criatividade; o que existe é uma crise na comunicação. A MPB continua sendo extremamente representativa da nossa brasilidade, da nossa criatividade. Há todo um esforço para que a poesia popular cantada continue alcançando níveis elevados, mantendo a qualidade competitiva com qualquer música do mundo. Mas o que existe é uma falta de comunicação, ou uma falta de valorização pela comunicação daquilo que está se fazendo em música popular. É grave dizer isso porque o Brasil é um país que não tem orgulho da sua cultura, e não o tendo permite que uma lei que reserve 50% do espaço para música estrangeira possa vigorar. Não há país no mundo que ofereça 50% de sua reserva de mercado em música, de graça, para outros países. Será que os Estados Unidos ofereceriam esse espaço para a música popular brasileira? Será que a Inglaterra ou a França ofereceriam isso?

A qualidade do teu trabalho é indiscutível, mas o que explica o fato de Belchior e tantos outros aparecerem tão pouco na TV, tocarem tão pouco em rádio, terem tão pouco espaço?
Belchior – Existem os interesses dos meios de comunicação e das grandes companhias de discos. Isso, até antes de ser uma crítica, é uma singela observação. Acontece comigo o que acontece com a maioria do pessoal da minha geração. A MPB tem pouquíssimo espaço na comunicação. Música como a de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Jorge Benjor, Paulinho da Viola, João Bosco, Alceu Valença, a minha mesmo, e de tantos outros que continuam o trabalho criativo dessa geração, é ou relegada pelos meios de comunicação ou não tem o seu real valor pesado, medido e contatado como deve ser.

E o que determina isso?
Belchior – É claro que há uma influência dos modismos que surgem a cada momento e dos quais a comunicação se aproxima de forma tão avassaladora a ponto de exaurir e esgotar não só a criação dos gêneros como as linguagens e o gosto do público.

O que tu tens ouvido ultimamente?
Belchior – Eu tenho dois tipos de audição. Uma eu chamo de profissional, ou seja, procuro ouvir o máximo que possa para saber do que se trata e orientar minha produção. Aí entra tudo, desde música brega, “neossertaneja”, música nordestina, jazz, blues, metal, enfim. Agora, a minha preferência pessoal fica para aqueles cantores, compositores, intérpretes e instrumentistas que exercem seu ofício com preocupação nitidamente artística. Continuo gostando de Bob Dylan, John Lennon, Ray Charles, Otis Redding, Joe Cocker, Rod Stewart, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Benjor, Cartola, Nelson Cavaquinho... E gosto muitíssimo do pessoal do rock brasileiro, que dá continuidade à tradição de rebeldia do rock e à tradição de linguagem urbana e metropolitana, de revolta juvenil, como Titãs e Lobão. Mas há dois que continuam no meu coração: Rita Lee e Raul Seixas.

Chegaste a trabalhar com o Arnaldo Antunes, dos Titãs, não é?
Belchior – Produzi o primeiro disco da banda Performática, de onde saíram os Titãs. Sou o primeiro intérprete brasileiro que gravou músicas do Arnaldo.

O diferencial da tua música é realmente a qualidade e a preocupação com as letras, o aspecto poético. Fala dessa tua relação com a palavra.
Belchior – Eu fui para a música popular por causa da poesia. A música popular restaura toda a importância da poesia, inclusive o seu espaço primitivo, quando ela era dramática e cantada. O rádio e a televisão permitem que esse espaço tão importante da poesia possa ser recuperado pela poesia cantada. A minha preocupação no meu ofício continua sendo criativa, ligada com o que você pode viver através da palavra cantada. Vem daí o meu gosto pelos autores, aqueles que fazem música e letra.

Na música de hoje, a palavra não fica ofuscada ou diluída pelas imagens, como no clássico exemplo dos videoclipes?
Belchior – O videoclipe é uma linguagem televisiva marcante e interessante. O grande problema é a exaustão dos meios. Quando aparece uma opção como a dos clipes, surgem logo trezentos milhões de vídeos e a linguagem acaba esgotada antes de manifestar o efeito criativo que poderia ter. A voracidade com que a comunicação se aproxima dos fenômenos artísticos, transformando mesmo os objetos artísticos em meras mercadorias de consumo, impede que as linguagens se tornem eficazes e demonstrem seu potencial criativo. O videoclipe é uma linguagem contemporânea, moderna, que eu acho importantíssima. Depende do uso que é feito dela. (3)

Lançaste agora um CD com músicas tuas para o mercado uruguaio. Belchior está “invadindo” o Mercosul?
Belchior – Na verdade, muito antes do Mercosul eu já havia não só me identificado como uma figura latino-americana como havia lançado em diversos trabalhos a possibilidade de se pensar a América Latina contemporânea. Sempre fui partidário da ideia de que se deve expandir a noção e o conhecimento do que é a América Latina. Devemos transitar daquilo que é mais folclórico, estereotipado, para uma visão atualizada do significado humano, cultural, político e social do continente. Esse trabalho de integração das culturas já vem sendo feito pelos artistas, que sonharam com isso muito antes que os políticos, Eu espero que os políticos possam, de alguma forma, concretizar o sonho dos artistas – e eu me coloco entre eles – que cantaram e pensaram a América Latina contemporânea. (4)

E o CD?
Belchior – Nesta semana está saindo esse CD latino-americano, chamado “Eldorado”. São sete músicas cantadas em espanhol por Larbanois & Carrero e Laura Canoura, de Montevidéu, e sete músicas que eu canto em português. O nome do disco já se refere ao sonho e à utopia a que a palavra remete, e o ato de ser cantado nas duas línguas também quer ser simbólico de duas coisas. Primeiro, de que o Brasil deve atender ao apelo das outras nações do continente para que se integre nesta comunidade de pensamento, cultura e humanismo. A segunda coisa é que a língua portuguesa faz parte do universo latino-americano e deve ser, pelo menos através da palavra cantada, “recuperada” para esse universo ao qual ela natural e espontaneamente pertence.

Continuas pintando?
Belchior – Bom, eu sou desenhista, e a pintura para mim não é um hobby. Continuo fazendo as capas dos meus discos e o trabalho de caligrafia e ilustração da “Divina Comédia” (de Dante), que já está bastante avançado. Tenho um amor especial pela pintura, sobretudo.


Autorretrato de Belchior para a capa do disco "Divina comédia humana"

O que é mais uma parte da tua formação bastante heterogênea, que inclui desde os cantadores do Nordeste, corais de igreja, aulas de línguas, canto gregoriano, filosofia, rock, medicina etc. Com funcionou tanta diversidade junta?
Belchior – Eu tenho uma formação típica de menino do Nordeste, que estudou em colégio de padre e ouviu serviço de alto-falante. Comecei a fazer música no período universitário, em função do meu interesse pela poesia, sobretudo os poetas românticos e simbolistas. Depois, os nomes da linhagem de Walt Whitman, que posteriormente vim a saber que era fonte também do Bob Dylan. Tento fazer um tipo de música popular contemporânea que utilize todos esses recursos. Faço parte de uma geração para quem fazer música é produzir um objeto artístico explosivo. Os meus modelos para fazer essa música que seja uma versão contemporânea da poesia popular cantada continuam sendo Bob Dylan – um menestrel dos nossos tempos –, John Lennon e a música nova do Brasil.

Porto Alegre sempre te recebeu bem. Quais as tuas ligações com a cidade?
Belchior – As minhas relações com o povo gaúcho são as melhores possíveis já de longo tempo. A partir do Araújo Viana, fiz meu primeiro grande contrato e tive meu trabalho lançado pela Elis Regina. Venho ininterruptamente ao Rio Grande do Sul desde 1976, e isso criou uma emoção especial no exercício do meu ofício, porque tenho aproveitado para trocar muita coisa com o público. Além daqui, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais são seguramente os estados onde mais cantei. (5)

Quais os livros novos que vão na bagagem depois da Feira do Livro?
Belchior – Olha, estou indo na Feira justamente depois desta entrevista. Vou comprar o livro do Bob Dylan, o livro do Noel Rosa, “O anjo pornográfico”, do Ruy Castro... Livros que falam da vida do Paul Klee, do Miró, do Picasso, do Matisse... (6)

Nada dos autores que anunciam o fim da História, o fim das utopias? (7)
Belchior – Eu vejo esse autores como aqueles profetas que estão há muito tempo anunciando o fim do mundo. É difícil analisar o que quer dizer o fim da História. Não sei se se pode chegar a essa conclusão filosófica ou sociologicamente. Longe de qualquer pensamento mais profundo ou elaborado sobre o tema, acho que o fim da História só viria com o fim da humanidade, como aconteceu com os dinossauros. Naturalmente, mesmo dizendo isso, esses historiadores não esquecem de colocar seu dinheiro nas contas que têm.

A referência seria o fim das utopias. É possível acreditar nisso?
Belchior – Eu não acredito que haja o fim das utopias, o fim do pensamento, o fim do sonho. A imaginação faz parte do ser histórico do homem, e desse ponto de vista é ela que move o mundo e o pensamento. Não é sem razão que eu fiz recentemente um disco chamado “Elogio da loucura”, que é um disco utópico, sobre a aventura e o sonho jovem do nosso tempo.

Para encerrar: nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?
Belchior – Essa frase retrata um certo conformismo que, no meu ponto de vista, é característico da nossa cultura – infelizmente. Esse conformismo, a crença demasiada na força e na obrigação do passado, a confiança inesgotável na tradição e o fato de o Brasil ser um país atrasado sempre me ocuparam e sempre me preocuparam. Vem daí a razão dessas ideias tantas vezes aparecerem nas minhas músicas. O Brasil é um país atrasado nos dois sentidos, ou seja, está atrás de muitos comparsas da História e sempre chega depois da hora marcada. Nós já estamos na era do automóvel, mas não sabemos lidar com o automóvel. Matamos no trânsito mais gente do que em muitas guerras encarniçadas. Matamos num ano quase o mesmo número de soldados americanos mortos em dez anos no Vietnam. Quer dizer, dispomos de algumas tecnologias, mas não sabemos lidar com aqueles objetos para os quais já chegamos atrasados.

Mas mesmo assim dá para acreditar no futuro?
Belchior – É claro! Na verdade eu acredito no presente. Tenho fé no presente e esperança no futuro.

***

Comentários a respeito de John – ou melhor, de Belchior:

1) Pergunta e resposta se referem às manifestações pelo impeachment de Fernando Collor. Era comum que os jovens saíssem às ruas com as cores da bandeira do Brasil no rosto, daí a expressão “caras pintadas”.
2) Àquela altura, tomando como marco o lançamento do disco “As aventuras da Blitz” – da banda Blitz, obviamente –, a explosão da nova geração do rock brasileiro completava dez anos. É a turma de Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha, Ira!, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Lulu Santos, Marina Lima, do pessoal mais ligado ao punk, como Plebe Rude e Inocentes, e muitos outros. Até Lobão – citado por Belchior na entrevista –, que, nos anos 80, posava de roqueiro rebelde.
3) A relação música-imagem-mercado mudou definitivamente com a criação da MTV nos Estados Unidos, em 1981. A primeira versão brasileira, da Abril, é de 1990; tinha só dois aninhos de vida na época da entrevista. Parece surpreendente que Belchior fale em “voracidade” e “exaustão” antes da era da internet e dos milhares de canais de TV por assinatura à disposição? Lembremos Guy Debord: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação. (...) Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos –, o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade. É a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o consumo que decorre dessa escolha”. Está nas primeiras páginas de “A sociedade do espetáculo”. De 1967.
4) O Mercado Comum do Sul (Mercosul), envolvendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, teve seu início oficial com a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991.
5) O Auditório Araújo Viana é uma tradicional casa de espetáculos de Porto Alegre. Foi inaugurado em 1964 e hoje tem capacidade para cerca de 3.500 pessoas. Entre outras músicas de Belchior, Elis Regina gravou “Mucuripe” e, claro, “Como nossos pais”.
6) A Feira do Livro de Porto Alegre ocorre anualmente durante quinze dias, começando na última sexta-feira de outubro. Ao contrário de outras feiras do gênero, é realizada numa praça na região central da cidade, e não em espaços fechados. Sobre Bob Dylan, é difícil saber se se trata de um livro do próprio músico ou de uma biografia.
7) A referência aqui é especialmente a Francis Fukuyama, economista nipo-americano que ficou famoso com o artigo “O fim da história”, de 1989, origem de seu livro “O fim da história e o último homem”, de 1992. Fukuyama é hoje professor da Universidade de Stanford. E, sim, aparentemente fez fortuna a partir do livro.










segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ana Claudia Quintana Arantes: "A morte é um dia que vale a pena viver"

por Paulo Hebmüller – viajantedoinverso.blogspot.com.br


Ana Claudia: cuidar do outro só é possível
quando se cuida de si mesmo

Insônia, taquicardia, dor na lombar, estresse. Será muito café? Muito trabalho? Muito trânsito? Muito sim e pouco não?
A médica Ana Claudia Quintana Arantes fugia do próprio diagnóstico.
E veio mais um convite ao qual ela não soube dizer não: a celebração do Dia Internacional da Mulher na Associação Paulista de Medicina (APM).
Sua agenda naquele dia de março de 2006 quase a obrigaria a se desdobrar em vários clones, mas não previa que o mais inesperado e transformador encontro seria exatamente o último compromisso da longa jornada.
No evento da APM, ao qual chegou atrasada e não encontrou lugar para sentar, Ana Claudia teve que ficar de pé num canto da escada, piorando a dor da lombar. A sessão de homenagens foi encerrada com uma peça em que o ator João Signorelli encarna Gandhi.
Uma epifania.

Uma mãe levou o filho até Mahatma Gandhi e implorou-lhe:
– Por favor, Mahatma, diga a meu filho para não comer mais açúcar...
Depois de uma pausa, Gandhi pediu à mãe:
– Traga seu filho de volta daqui a duas semanas.
Duas semanas depois, ela voltou com o filho.
Gandhi olhou bem no fundo dos olhos do garoto e lhe disse:
– Não coma açúcar...
Agradecida, porém perplexa, a mulher perguntou a Gandhi:
– Por que me pediu duas semanas? Podia ter dito a mesma coisa a ele antes!
E Gandhi respondeu-lhe:
– Há duas semanas, eu estava comendo açúcar.
(Trecho da peça Gandhi, um líder servidor, citado na página 40 de A morte é um dia que vale a pena viver)

“Aquilo capítulo é faca na caveira”, diz a médica de 48 anos, referindo-se ao segmento intitulado “Cuidar de quem cuida”, de seu novo livro – A morte é um dia que vale a pena viver terá lançamento nesta terça (30), às 18h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. 
Naquele encontro com Gandhi, que em entrevista ao blog Ana Claudia classificou como “quase alucinatório”, ela chegou à conclusão de que tudo o que estava fazendo pelos seus pacientes, por sua família e por seus amigos “era uma imensa, enorme, pesada e insuportável hipocrisia”.
A grande descoberta: cuidar dos outros só é possível quando há tempo e espaço para o cuidado de si mesmo. “Desse dia em diante eu teria a certeza de estar com os pés no meu caminho: posso cuidar do sofrimento do outro, pois estou cuidando do meu”, escreve no livro.

Leia a seguir trechos da entrevista que Ana Claudia Quintana Arantes concedeu ao blog.

Cuidar de quem cuida

“Eu fiz essa descoberta na sombra, não na luz... A Heloisa Gioia tem um livro chamado A roda da vida, no qual ela fala dos reinos em que, de acordo com o budismo tibetano, a gente pode viver. Há o reino dos infernos, o dos humanos, o dos animais, o dos famintos, o dos semideuses e o dos deuses. Você só pode atingir a iluminação em dois deles: no reino dos infernos ou no humano. Nos outros você não tem essa chance.
Penso que a minha clareza sobre autocuidado veio no inferno, porque era um momento em que tudo na minha vida pessoal estava sem cuidado. Por exemplo, eu estava sempre me projetando num movimento de culpa, de obrigação e de pena em relação à minha família de origem por achar que eu estava tendo oportunidades que eles não tiveram. Eu tinha dor nas costas, dor no estômago... Como escrevo no diário, atribuía a muito café, muito trânsito... Eu sempre tinha uma desculpa bem lateral ao problema de fato.
O interessante é que a luz veio num movimento de perseverança no erro de sempre dizer ‘sim’. Eu disse ‘sim’ naquela noite em que queria dizer ‘não’, e fui até a APM. Fui pelo caminho que sabia fazer, que era o de agradar. E nesse caminho eu vi o Gandhi falando comigo. Foi quase alucinatório: eu como açúcar! Não posso mandar a pessoa não comer açúcar. Se liga!
Foi uma mensagem tão poderosa... Mesmo que tenha que voltar para o fim da fila, a pessoa vai esperar você parar de comer açúcar para poder cuidar direito dela. É o que o Gandhi faz naquela cena, como se dissesse: ‘eu sei que você está precisando de mim agora, mas agora eu não tenho para dar’.
Essa mudança, claro, não foi assim num estalar de dedos. Foi um processo, que começou em 2006 e levou quatro anos. Em 2010 eu estava na segurança do autocuidado, cuidando do meu corpo, da minha espiritualidade e fazendo terapia, e tinha também encaminhado muitas coisas da minha vida pessoal e familiar.”

A gestação do livro

“A ideia de escrever sobre esse tema me acompanha há certo tempo. Eu já estava com um material adiantado na linha de histórias das pessoas de quem eu cuidei, e que trataria de questões relativas a tempo, arrependimentos, cuidado com o sofrimento, religião versus espiritualidade etc. Eu ia escrevendo à medida que a alma pedia, sem prazo.
Num certo momento veio o convite para falar num TEDx organizado pela Faculdade de Medicina da USP. A princípio fiquei com reservas, afinal eu havia passado um tempo difícil naquela faculdade. Demorei para responder e acabei já me desculpando, dizendo que achava que não daria mais tempo e tal.  Mas insistiram e acabamos acertando.
Eu tinha alguns meses para me preparar para fazer uma fala de dezoito minutos, e ia ensaiando no trânsito: colocava o timer no celular e via quanto tempo dava. Às vezes eram doze minutos, às vezes 25, e eu ia podando ou aumentando.
Minha grande dificuldade era pensar como começar. Sempre tenho um livro de poesia na bolsa, e um dia estava com um do Manoel de Barros. Então li um trecho que é a minha biografia!

Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha 
encontros diários com suas contradições. 
(Um Olhar, Manoel de Barros)

Despraticar as normas é comigo mesmo, e aí comecei e me apresentei com essa poesia, e acabou fluindo.
Esse TEDx foi realizado em novembro de 2012, e no início de 2013 foi publicado no Youtube. Quando assisti e vi o que tinha dito, eu chorei. Não acreditava que tinha conseguido colocar aquilo tudo em menos de dezoito minutos.
Esse vídeo rodou muito e recebi mensagens de muita gente. Aliás, ainda recebo. Até que parou nas mãos da Maria João Costa, uma editora portuguesa que trabalhava no Brasil. Ela entrou em contato comigo e disse que aquele tema precisava virar um livro, que poderia ter quantas páginas eu quisesse e que a editora daria todo o suporte para o trabalho.
Nesse meio tempo conheci o Gustavo Gitti (coordenador do espaço o lugar e colunista da revista Vida Simples), que já sabia do meu trabalho. Um dia perguntei se ele toparia fazer um curso chamado ‘Conversas sobre a morte’ n’o lugar. O olho dele brilhou: era só falar com os sócios. Minha ideia era fazer vários encontros, transcrevê-los e trabalhar a partir desses textos, porque tenho uma fluência melhor de pensamentos e ideias quando há um par de olhos na minha frente. No computador até vou bem, mas é mais trabalhoso.
O Gustavo me perguntou se eu me importaria caso o curso fosse para umas oito ou nove pessoas. Ele estava com medo que não houvesse inscrições suficientes para que o curso se pagasse. Eu disse que não tinha problema. Não precisamos de uma grande plateia, mas sim de gente que esteja interessada.
Só que foram quase trinta inscrições em um dia e meio. Depois de uma semana, eram 150 pessoas na lista de espera.
Então me remeti ao tempo em que os professores da faculdade diziam que ninguém quer falar sobre morte. Bom, ninguém quer falar, mas querem escutar!
As aulas estavam todas na minha cabeça, depois a editora transcreveu e eu trabalhei em cima desse texto. Foi assim a gestação do livro.”

A consciência da própria morte

“Existem aquelas pessoas que sabem que vão morrer, mas não querem falar sobre o assunto, e aquelas que estão tão envolvidas nas questões e limitações do dia a dia que a ideia de que vão morrer nunca passa pela sua cabeça.
No dia em que o pai estiver doente, por exemplo, estas últimas é que vão dizer: ‘isso não existe, meu pai não vai morrer! O seu até pode morrer, mas o meu não!’
O que acontece então é uma coisa adolescente – não é infantil, porque a criança sabe. Envelhecer tem um certo momento em que a gente emburrece... A criança é muito sábia; o adolescente nem tanto, porque está mais perto de ser adulto e está treinando para ser burro. A criança é livre, tem o espaço da criação e das possibilidades. O adolescente já está entrando na caixinha.
Há portanto esses dois universos paralelos. Pode existir uma escolha de autoengano, porque quando você olha para essa realidade com os dois olhos abertos, e quando você encontra a realidade da sua morte – se a encontrar de fato –, não dá para continuar sendo o mesmo.
E aí você tem que se comprometer. É como aprender a ler. Apareceu um outdoor, você lê, não pode dizer: ‘não vou ler nunca mais’. Se você aprender a olhar por esse prisma da consciência da finitude, nada mais vai escapar disso na sua vida. Cada vez que você se relacionar, começar um projeto, trabalhar, comprar uma casa nova, vai pensar: ‘e quando eu morrer, o que vai ser?’”

Empatia e compaixão

“A empatia é a sua capacidade de perceber o sentimento do outro, ou seja, de se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro está sentindo. É apenas um movimento de troca de lugar. A depender do tamanho da minha empatia, acabo vivenciando a sua dor e isso me machuca. O caminho da empatia segue por conseguir compreender as suas necessidades e talvez oferecer alguma coisa para aliviar o seu sofrimento.
A compaixão vai além do sentimento: é um movimento que me preserva e no qual o seu sofrimento não me violenta. Eu pego lá dentro de você a sua força e digo: ‘olha, enfrenta’. Eu tenho essa força em mim e a reconheço em mim; então a reconheço em você também. Vou dizer: ‘você não está sozinho; vai dar conta’. Tiro o outro da posição de coitadinho. No lugar de dizer: ‘nossa, como você está sofrendo! Tá aqui a sua morfina’, eu digo – ‘vou fazer você plantar a papoula aí dentro. Você vai ter a semente da morfina em você. Esse poder é seu’.
Com a compaixão você empodera o outro. E não se machuca. Eu não te ajudo trocando de lugar e carregando os seus problemas, mas coloco em você aquilo que tenho em mim, que é a força para dar conta. Para mim a compaixão é isso.

Ana Claudia com a Monja Coen e Elke Maravilha
num evento promovido em 2014 pela revista TPM
Como digo no TEDx, o paciente curte duas vezes quando consegue fazer alguma coisa, desde passear no jardim até falar para a mãe ou para os filhos que vai morrer: a primeira é quando faz e a segunda é quando conta que fez – ‘olha, eu contei, eu me despedi’. A pessoa vibra com essas coisas.
Há um texto muito poderoso chamado The Diyng Role – o papel da pessoa que morre. Essa pessoa pode deixar um legado: o que você quer que os outros lembrem de você?
Veja a Elke Maravilha: ninguém ficou falando do que ela morreu ou como foi a morte dela. Tudo o que eu vi era falando da vida dela. O que é a vida dessa mulher?...”


A difusão dos Cuidados Paliativos

Dedico muito tempo da minha vida a estudar sobre Cuidados Paliativos. A assistência integral, multidimensional que a medicina pode propor a um paciente às voltas com uma doença grave, incurável e que ameaça a continuidade da sua vida tem sido o foco da minha trajetória profissional. Vou mais longe: minha vida encheu-se de sentido quando descobri que tão importante quanto cuidar do outro é cuidar de si.
(A morte é um dia que vale a pena viver, página 30)

“Estou vivendo um movimento do qual talvez não tenha a dimensão do que vai significar a médio e longo prazo. É um movimento que vem dos estudantes de Medicina para encontrar essa cultura. É uma coisa belíssima. Toda semana estou numa faculdade de Medicina para falar sobre isso – e quem me chama são os alunos, não os professores. Eles querem saber como cuidar do sofrimento
Hoje já encontro alunos que escolheram fazer Medicina por causa do vídeo do TEDx e que me dizem: ‘eu quero ser um médico igual a você’. Eu digo: ‘cara, você está condenado à felicidade! Lide com isso!’. Eu tenho um tesão absoluto por ser médica, e vou fazer 25 anos de profissão. O estudante também tem.
Claro, a faculdade depois vai dizer – ‘não é nada disso, a vida é outra’. Não, a vida é essa! Sim, temos o problema dos pagamentos, dos convênios, os plantões alucinatórios, a violência contra os profissionais, coisas terríveis acontecendo, mas eu estou num mundo paralelo.
As pessoas me dizem: ‘ah, mas você não trabalhou nessas condições’. Sim, trabalhei. Mas se no meu plantão eu via um velhinho deitado no chão porque não tinha nem maca para ele, eu não ia tirar uma foto para postar e ficar lamentando, até porque nem havia celular. Eu agachava lá e dizia: ‘o senhor já percebeu que as coisas estão muito difíceis aqui. O senhor está com dor, está com falta de ar? Tem alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor agora?’
Quanto tempo demorava para que eu fizesse isso? Um minuto? Dois? Eu me agachava para falar com ele e não me vitimizava. Acho que a tendência natural de quem vê muito sofrimento é se vitimizar.
O movimento que está acontecendo agora é dos estudantes que querem aprender, e da parte dos profissionais de saúde a procura também está aumentando. Por isso ressalto que é preciso aliar a humanidade ao conhecimento técnico. Não é só a humanidade: você quase tem que fazer a faculdade de novo para aprender essa técnica de alívio do sofrimento.
Quanto aos professores, isso está chegando meio na marra, porque hoje começa a pegar bem falar de cuidados paliativos, então tem muita gente pegando uma vaidadezinha. Tem gente que sempre jogou areia na minha farofa e agora chega para mim e fala: ‘lembra, Ana, quando a gente fazia os projetos juntos e eu te apoiava?’ E eu: ‘sabe, não tô lembrando muito bem dessa parte...’
O que me consola é que essas pessoas vão morrer também... Esse é o meu lado sombra. Quando me perguntam o que eu acho da política e tal, digo que todo mundo vai morrer. Essas pessoas não vão durar para sempre. Podem vender a alma para o demônio quantas vezes quiserem – mas vão morrer.”

Coragem de falar sobre a morte

As pessoas têm muito medo, um medo até muito primitivo de verbalizar uma coisa e acreditar que ela vai acontecer. Algo como: ah, se você falar sobre a morte, então a morte vem. Bom, ela vem mesmo que você não fale a respeito... Ela vai acontecer, não é preciso se preocupar com isso. Eu uso o exemplo do seguro de carro. Você faz seguro porque vai bater ou quer bater o seu carro?
A questão não é que falar sobre dá azar. É que, se falar sobre a morte, você precisa mudar. E as pessoas não querem mudar.
Se você vai conversar com seu pai ou sua mãe sobre isso, ninguém será mais o mesmo depois dessa conversa. Se você falar sobre essa morte, assume a possibilidade de ficar órfão. E você não quer lidar com isso.”

Ana Claudia com Nina Campos numa edição
do intensivo Conversas sobre a morte

Religião

A religião pode ser uma comorbidade grave, até perversa, ou uma ferramenta de cura muito profunda e eficaz.
(A morte é um dia que vale a pena viver, página 120)

“Talvez o melhor capelão que vá existir no mundo seja ateu – para poder interagir com todos esses universos da religião sem manchar nenhum.
No livro falo de um estudo chamado ‘Qual o preço da sua alma?’, um trabalho feito com ressonância funcional, que é um exame de imagem que mostra a atividade dos neurônios quando recebem determinados estímulos.
Os voluntários eram submetidos a expressões que poderiam ser consideradas como sagradas – Deus, vida humana, vida animal, dinheiro, trabalho, família, conhecimento etc., e o exame mostrava quais áreas do cérebro eram ‘acendidas’. Na primeira fase, acendiam basicamente dois espaços: um é uma área chamada de utilitarista, ligada à avaliação de custo e benefício. A outra é a dos valores deontológicos sobre certo e errado.
Na segunda fase, ofereciam dinheiro para a pessoa mudar de ideia. O resultado é que a pessoa tinha uma chance muito maior de mudar de ideia se a sua área do sagrado acendesse no custo e benefício. Então, a sua fé tem preço. Pode ser um preço alto, como a vida do seu filho, da sua esposa, da sua mãe – mas tem preço.
Há outra areazinha que acende, na base da amígdala, bem pequenininha, batizada ironicamente de ‘pensamento de Deus’. Essa área acende quando você diz: ‘Deus é misericordioso, Deus é maravilhoso, Deus é justo’. Quando você diz: ‘minha mãe é maravilhosa, minha mãe é incrível, meu filho é incrível’, acende lá. Ali é o pensamento do outro. Na verdade, é o que você pensaria se fosse o outro, se você fosse sua mãe ou seu filho.
Então, quando fala de Deus, esse pensamento está falando do Deus que você seria: misericordioso, justo, vaidoso... Você negocia com o Deus que está em si mesmo.”

O amor

“O amor merece a imortalidade. Ao longo da nossa vida o desafio é encontrar essa possibilidade da experiência amorosa – não só no sentido de um relacionamento com um parceiro ou uma parceira, mas a experiência amorosa com um filho, com um desconhecido, com o conhecimento, com o outro, com aquilo que você pode dar de melhor de si e receber o que o outro tem de melhor para dar. O melhor.
Acredito que não dá para abrir a porta da verdade de quem é você se não for por essa chave. A gente encontra pela vida pessoas que abrem a porta da raiva, da tristeza, da dificuldade – mil portas. Mas, para encontrar a verdade sobre si mesmo, só pela porta do amor.
Só dá para ter a experiência completa dos dois lados, dando e recebendo amor. Não dá para ser de um lado só, como dar sem receber. 
Para mim, essa experiência amorosa é o que definitivamente nos faz humanos. A morte é uma grande potencializadora dessa experiência porque ela nos coloca no nosso lugar de seres humanos mortais e finitos.
Quando assume esse lugar, você põe o tapete vermelho para o amor entrar. As amarras caem e você se solta.
A morte é uma grande aliada.”
















A morte é um dia que vale a pena viver, de Ana Claudia Quintana Arantes
Casa da Palavra, 192 páginas, 
R$ 29,90


Saiba mais:


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Clique aqui para ler reportagem na revista Problemas Brasileiros sobre cuidados paliativos e testamento vital