segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ana Claudia Quintana Arantes: "A morte é um dia que vale a pena viver"

por Paulo Hebmüller – viajantedoinverso.blogspot.com.br


Ana Claudia: cuidar do outro só é possível
quando se cuida de si mesmo

Insônia, taquicardia, dor na lombar, estresse. Será muito café? Muito trabalho? Muito trânsito? Muito sim e pouco não?
A médica Ana Claudia Quintana Arantes fugia do próprio diagnóstico.
E veio mais um convite ao qual ela não soube dizer não: a celebração do Dia Internacional da Mulher na Associação Paulista de Medicina (APM).
Sua agenda naquele dia de março de 2006 quase a obrigaria a se desdobrar em vários clones, mas não previa que o mais inesperado e transformador encontro seria exatamente o último compromisso da longa jornada.
No evento da APM, ao qual chegou atrasada e não encontrou lugar para sentar, Ana Claudia teve que ficar de pé num canto da escada, piorando a dor da lombar. A sessão de homenagens foi encerrada com uma peça em que o ator João Signorelli encarna Gandhi.
Uma epifania.

Uma mãe levou o filho até Mahatma Gandhi e implorou-lhe:
– Por favor, Mahatma, diga a meu filho para não comer mais açúcar...
Depois de uma pausa, Gandhi pediu à mãe:
– Traga seu filho de volta daqui a duas semanas.
Duas semanas depois, ela voltou com o filho.
Gandhi olhou bem no fundo dos olhos do garoto e lhe disse:
– Não coma açúcar...
Agradecida, porém perplexa, a mulher perguntou a Gandhi:
– Por que me pediu duas semanas? Podia ter dito a mesma coisa a ele antes!
E Gandhi respondeu-lhe:
– Há duas semanas, eu estava comendo açúcar.
(Trecho da peça Gandhi, um líder servidor, citado na página 40 de A morte é um dia que vale a pena viver)

“Aquilo capítulo é faca na caveira”, diz a médica de 48 anos, referindo-se ao segmento intitulado “Cuidar de quem cuida”, de seu novo livro – A morte é um dia que vale a pena viver terá lançamento nesta terça (30), às 18h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. 
Naquele encontro com Gandhi, que em entrevista ao blog Ana Claudia classificou como “quase alucinatório”, ela chegou à conclusão de que tudo o que estava fazendo pelos seus pacientes, por sua família e por seus amigos “era uma imensa, enorme, pesada e insuportável hipocrisia”.
A grande descoberta: cuidar dos outros só é possível quando há tempo e espaço para o cuidado de si mesmo. “Desse dia em diante eu teria a certeza de estar com os pés no meu caminho: posso cuidar do sofrimento do outro, pois estou cuidando do meu”, escreve no livro.

Leia a seguir trechos da entrevista que Ana Claudia Quintana Arantes concedeu ao blog.

Cuidar de quem cuida

“Eu fiz essa descoberta na sombra, não na luz... A Heloisa Gioia tem um livro chamado A roda da vida, no qual ela fala dos reinos em que, de acordo com o budismo tibetano, a gente pode viver. Há o reino dos infernos, o dos humanos, o dos animais, o dos famintos, o dos semideuses e o dos deuses. Você só pode atingir a iluminação em dois deles: no reino dos infernos ou no humano. Nos outros você não tem essa chance.
Penso que a minha clareza sobre autocuidado veio no inferno, porque era um momento em que tudo na minha vida pessoal estava sem cuidado. Por exemplo, eu estava sempre me projetando num movimento de culpa, de obrigação e de pena em relação à minha família de origem por achar que eu estava tendo oportunidades que eles não tiveram. Eu tinha dor nas costas, dor no estômago... Como escrevo no diário, atribuía a muito café, muito trânsito... Eu sempre tinha uma desculpa bem lateral ao problema de fato.
O interessante é que a luz veio num movimento de perseverança no erro de sempre dizer ‘sim’. Eu disse ‘sim’ naquela noite em que queria dizer ‘não’, e fui até a APM. Fui pelo caminho que sabia fazer, que era o de agradar. E nesse caminho eu vi o Gandhi falando comigo. Foi quase alucinatório: eu como açúcar! Não posso mandar a pessoa não comer açúcar. Se liga!
Foi uma mensagem tão poderosa... Mesmo que tenha que voltar para o fim da fila, a pessoa vai esperar você parar de comer açúcar para poder cuidar direito dela. É o que o Gandhi faz naquela cena, como se dissesse: ‘eu sei que você está precisando de mim agora, mas agora eu não tenho para dar’.
Essa mudança, claro, não foi assim num estalar de dedos. Foi um processo, que começou em 2006 e levou quatro anos. Em 2010 eu estava na segurança do autocuidado, cuidando do meu corpo, da minha espiritualidade e fazendo terapia, e tinha também encaminhado muitas coisas da minha vida pessoal e familiar.”

A gestação do livro

“A ideia de escrever sobre esse tema me acompanha há certo tempo. Eu já estava com um material adiantado na linha de histórias das pessoas de quem eu cuidei, e que trataria de questões relativas a tempo, arrependimentos, cuidado com o sofrimento, religião versus espiritualidade etc. Eu ia escrevendo à medida que a alma pedia, sem prazo.
Num certo momento veio o convite para falar num TEDx organizado pela Faculdade de Medicina da USP. A princípio fiquei com reservas, afinal eu havia passado um tempo difícil naquela faculdade. Demorei para responder e acabei já me desculpando, dizendo que achava que não daria mais tempo e tal.  Mas insistiram e acabamos acertando.
Eu tinha alguns meses para me preparar para fazer uma fala de dezoito minutos, e ia ensaiando no trânsito: colocava o timer no celular e via quanto tempo dava. Às vezes eram doze minutos, às vezes 25, e eu ia podando ou aumentando.
Minha grande dificuldade era pensar como começar. Sempre tenho um livro de poesia na bolsa, e um dia estava com um do Manoel de Barros. Então li um trecho que é a minha biografia!

Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha 
encontros diários com suas contradições. 
(Um Olhar, Manoel de Barros)

Despraticar as normas é comigo mesmo, e aí comecei e me apresentei com essa poesia, e acabou fluindo.
Esse TEDx foi realizado em novembro de 2012, e no início de 2013 foi publicado no Youtube. Quando assisti e vi o que tinha dito, eu chorei. Não acreditava que tinha conseguido colocar aquilo tudo em menos de dezoito minutos.
Esse vídeo rodou muito e recebi mensagens de muita gente. Aliás, ainda recebo. Até que parou nas mãos da Maria João Costa, uma editora portuguesa que trabalhava no Brasil. Ela entrou em contato comigo e disse que aquele tema precisava virar um livro, que poderia ter quantas páginas eu quisesse e que a editora daria todo o suporte para o trabalho.
Nesse meio tempo conheci o Gustavo Gitti (coordenador do espaço o lugar e colunista da revista Vida Simples), que já sabia do meu trabalho. Um dia perguntei se ele toparia fazer um curso chamado ‘Conversas sobre a morte’ n’o lugar. O olho dele brilhou: era só falar com os sócios. Minha ideia era fazer vários encontros, transcrevê-los e trabalhar a partir desses textos, porque tenho uma fluência melhor de pensamentos e ideias quando há um par de olhos na minha frente. No computador até vou bem, mas é mais trabalhoso.
O Gustavo me perguntou se eu me importaria caso o curso fosse para umas oito ou nove pessoas. Ele estava com medo que não houvesse inscrições suficientes para que o curso se pagasse. Eu disse que não tinha problema. Não precisamos de uma grande plateia, mas sim de gente que esteja interessada.
Só que foram quase trinta inscrições em um dia e meio. Depois de uma semana, eram 150 pessoas na lista de espera.
Então me remeti ao tempo em que os professores da faculdade diziam que ninguém quer falar sobre morte. Bom, ninguém quer falar, mas querem escutar!
As aulas estavam todas na minha cabeça, depois a editora transcreveu e eu trabalhei em cima desse texto. Foi assim a gestação do livro.”

A consciência da própria morte

“Existem aquelas pessoas que sabem que vão morrer, mas não querem falar sobre o assunto, e aquelas que estão tão envolvidas nas questões e limitações do dia a dia que a ideia de que vão morrer nunca passa pela sua cabeça.
No dia em que o pai estiver doente, por exemplo, estas últimas é que vão dizer: ‘isso não existe, meu pai não vai morrer! O seu até pode morrer, mas o meu não!’
O que acontece então é uma coisa adolescente – não é infantil, porque a criança sabe. Envelhecer tem um certo momento em que a gente emburrece... A criança é muito sábia; o adolescente nem tanto, porque está mais perto de ser adulto e está treinando para ser burro. A criança é livre, tem o espaço da criação e das possibilidades. O adolescente já está entrando na caixinha.
Há portanto esses dois universos paralelos. Pode existir uma escolha de autoengano, porque quando você olha para essa realidade com os dois olhos abertos, e quando você encontra a realidade da sua morte – se a encontrar de fato –, não dá para continuar sendo o mesmo.
E aí você tem que se comprometer. É como aprender a ler. Apareceu um outdoor, você lê, não pode dizer: ‘não vou ler nunca mais’. Se você aprender a olhar por esse prisma da consciência da finitude, nada mais vai escapar disso na sua vida. Cada vez que você se relacionar, começar um projeto, trabalhar, comprar uma casa nova, vai pensar: ‘e quando eu morrer, o que vai ser?’”

Empatia e compaixão

“A empatia é a sua capacidade de perceber o sentimento do outro, ou seja, de se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro está sentindo. É apenas um movimento de troca de lugar. A depender do tamanho da minha empatia, acabo vivenciando a sua dor e isso me machuca. O caminho da empatia segue por conseguir compreender as suas necessidades e talvez oferecer alguma coisa para aliviar o seu sofrimento.
A compaixão vai além do sentimento: é um movimento que me preserva e no qual o seu sofrimento não me violenta. Eu pego lá dentro de você a sua força e digo: ‘olha, enfrenta’. Eu tenho essa força em mim e a reconheço em mim; então a reconheço em você também. Vou dizer: ‘você não está sozinho; vai dar conta’. Tiro o outro da posição de coitadinho. No lugar de dizer: ‘nossa, como você está sofrendo! Tá aqui a sua morfina’, eu digo – ‘vou fazer você plantar a papoula aí dentro. Você vai ter a semente da morfina em você. Esse poder é seu’.
Com a compaixão você empodera o outro. E não se machuca. Eu não te ajudo trocando de lugar e carregando os seus problemas, mas coloco em você aquilo que tenho em mim, que é a força para dar conta. Para mim a compaixão é isso.

Ana Claudia com a Monja Coen e Elke Maravilha
num evento promovido em 2014 pela revista TPM
Como digo no TEDx, o paciente curte duas vezes quando consegue fazer alguma coisa, desde passear no jardim até falar para a mãe ou para os filhos que vai morrer: a primeira é quando faz e a segunda é quando conta que fez – ‘olha, eu contei, eu me despedi’. A pessoa vibra com essas coisas.
Há um texto muito poderoso chamado The Diyng Role – o papel da pessoa que morre. Essa pessoa pode deixar um legado: o que você quer que os outros lembrem de você?
Veja a Elke Maravilha: ninguém ficou falando do que ela morreu ou como foi a morte dela. Tudo o que eu vi era falando da vida dela. O que é a vida dessa mulher?...”


A difusão dos Cuidados Paliativos

Dedico muito tempo da minha vida a estudar sobre Cuidados Paliativos. A assistência integral, multidimensional que a medicina pode propor a um paciente às voltas com uma doença grave, incurável e que ameaça a continuidade da sua vida tem sido o foco da minha trajetória profissional. Vou mais longe: minha vida encheu-se de sentido quando descobri que tão importante quanto cuidar do outro é cuidar de si.
(A morte é um dia que vale a pena viver, página 30)

“Estou vivendo um movimento do qual talvez não tenha a dimensão do que vai significar a médio e longo prazo. É um movimento que vem dos estudantes de Medicina para encontrar essa cultura. É uma coisa belíssima. Toda semana estou numa faculdade de Medicina para falar sobre isso – e quem me chama são os alunos, não os professores. Eles querem saber como cuidar do sofrimento
Hoje já encontro alunos que escolheram fazer Medicina por causa do vídeo do TEDx e que me dizem: ‘eu quero ser um médico igual a você’. Eu digo: ‘cara, você está condenado à felicidade! Lide com isso!’. Eu tenho um tesão absoluto por ser médica, e vou fazer 25 anos de profissão. O estudante também tem.
Claro, a faculdade depois vai dizer – ‘não é nada disso, a vida é outra’. Não, a vida é essa! Sim, temos o problema dos pagamentos, dos convênios, os plantões alucinatórios, a violência contra os profissionais, coisas terríveis acontecendo, mas eu estou num mundo paralelo.
As pessoas me dizem: ‘ah, mas você não trabalhou nessas condições’. Sim, trabalhei. Mas se no meu plantão eu via um velhinho deitado no chão porque não tinha nem maca para ele, eu não ia tirar uma foto para postar e ficar lamentando, até porque nem havia celular. Eu agachava lá e dizia: ‘o senhor já percebeu que as coisas estão muito difíceis aqui. O senhor está com dor, está com falta de ar? Tem alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor agora?’
Quanto tempo demorava para que eu fizesse isso? Um minuto? Dois? Eu me agachava para falar com ele e não me vitimizava. Acho que a tendência natural de quem vê muito sofrimento é se vitimizar.
O movimento que está acontecendo agora é dos estudantes que querem aprender, e da parte dos profissionais de saúde a procura também está aumentando. Por isso ressalto que é preciso aliar a humanidade ao conhecimento técnico. Não é só a humanidade: você quase tem que fazer a faculdade de novo para aprender essa técnica de alívio do sofrimento.
Quanto aos professores, isso está chegando meio na marra, porque hoje começa a pegar bem falar de cuidados paliativos, então tem muita gente pegando uma vaidadezinha. Tem gente que sempre jogou areia na minha farofa e agora chega para mim e fala: ‘lembra, Ana, quando a gente fazia os projetos juntos e eu te apoiava?’ E eu: ‘sabe, não tô lembrando muito bem dessa parte...’
O que me consola é que essas pessoas vão morrer também... Esse é o meu lado sombra. Quando me perguntam o que eu acho da política e tal, digo que todo mundo vai morrer. Essas pessoas não vão durar para sempre. Podem vender a alma para o demônio quantas vezes quiserem – mas vão morrer.”

Coragem de falar sobre a morte

As pessoas têm muito medo, um medo até muito primitivo de verbalizar uma coisa e acreditar que ela vai acontecer. Algo como: ah, se você falar sobre a morte, então a morte vem. Bom, ela vem mesmo que você não fale a respeito... Ela vai acontecer, não é preciso se preocupar com isso. Eu uso o exemplo do seguro de carro. Você faz seguro porque vai bater ou quer bater o seu carro?
A questão não é que falar sobre dá azar. É que, se falar sobre a morte, você precisa mudar. E as pessoas não querem mudar.
Se você vai conversar com seu pai ou sua mãe sobre isso, ninguém será mais o mesmo depois dessa conversa. Se você falar sobre essa morte, assume a possibilidade de ficar órfão. E você não quer lidar com isso.”

Ana Claudia com Nina Campos numa edição
do intensivo Conversas sobre a morte

Religião

A religião pode ser uma comorbidade grave, até perversa, ou uma ferramenta de cura muito profunda e eficaz.
(A morte é um dia que vale a pena viver, página 120)

“Talvez o melhor capelão que vá existir no mundo seja ateu – para poder interagir com todos esses universos da religião sem manchar nenhum.
No livro falo de um estudo chamado ‘Qual o preço da sua alma?’, um trabalho feito com ressonância funcional, que é um exame de imagem que mostra a atividade dos neurônios quando recebem determinados estímulos.
Os voluntários eram submetidos a expressões que poderiam ser consideradas como sagradas – Deus, vida humana, vida animal, dinheiro, trabalho, família, conhecimento etc., e o exame mostrava quais áreas do cérebro eram ‘acendidas’. Na primeira fase, acendiam basicamente dois espaços: um é uma área chamada de utilitarista, ligada à avaliação de custo e benefício. A outra é a dos valores deontológicos sobre certo e errado.
Na segunda fase, ofereciam dinheiro para a pessoa mudar de ideia. O resultado é que a pessoa tinha uma chance muito maior de mudar de ideia se a sua área do sagrado acendesse no custo e benefício. Então, a sua fé tem preço. Pode ser um preço alto, como a vida do seu filho, da sua esposa, da sua mãe – mas tem preço.
Há outra areazinha que acende, na base da amígdala, bem pequenininha, batizada ironicamente de ‘pensamento de Deus’. Essa área acende quando você diz: ‘Deus é misericordioso, Deus é maravilhoso, Deus é justo’. Quando você diz: ‘minha mãe é maravilhosa, minha mãe é incrível, meu filho é incrível’, acende lá. Ali é o pensamento do outro. Na verdade, é o que você pensaria se fosse o outro, se você fosse sua mãe ou seu filho.
Então, quando fala de Deus, esse pensamento está falando do Deus que você seria: misericordioso, justo, vaidoso... Você negocia com o Deus que está em si mesmo.”

O amor

“O amor merece a imortalidade. Ao longo da nossa vida o desafio é encontrar essa possibilidade da experiência amorosa – não só no sentido de um relacionamento com um parceiro ou uma parceira, mas a experiência amorosa com um filho, com um desconhecido, com o conhecimento, com o outro, com aquilo que você pode dar de melhor de si e receber o que o outro tem de melhor para dar. O melhor.
Acredito que não dá para abrir a porta da verdade de quem é você se não for por essa chave. A gente encontra pela vida pessoas que abrem a porta da raiva, da tristeza, da dificuldade – mil portas. Mas, para encontrar a verdade sobre si mesmo, só pela porta do amor.
Só dá para ter a experiência completa dos dois lados, dando e recebendo amor. Não dá para ser de um lado só, como dar sem receber. 
Para mim, essa experiência amorosa é o que definitivamente nos faz humanos. A morte é uma grande potencializadora dessa experiência porque ela nos coloca no nosso lugar de seres humanos mortais e finitos.
Quando assume esse lugar, você põe o tapete vermelho para o amor entrar. As amarras caem e você se solta.
A morte é uma grande aliada.”
















A morte é um dia que vale a pena viver, de Ana Claudia Quintana Arantes
Casa da Palavra, 192 páginas, 
R$ 29,90


Saiba mais:


Clique aqui para assistir ao vídeo do TEDx - A morte é um dia que vale a pena viver

Clique aqui para ler reportagem na revista Problemas Brasileiros sobre cuidados paliativos e testamento vital

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Sônia Barbosa Magalhães: "Em Belo Monte, quem pegar a boia se salva, quem não pegar morre afogado"


Populações obrigadas a abandonar seu lugar se sacrificam para beneficiar uma pequena parcela da sociedade, considera a professora da UFPA



            “Eu fui expulsa daqui. Eu nunca disse que queria sair, nunca tentei negociar. Eu fui expulsa do meu local”, explicou dona Raimunda Cavalcante Gomes à equipe interinstitucional liderada pelo Ministério Público Federal (MPF) que no ano passado percorreu algumas das ilhas do Xingu na área que será inundada pela represa da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Nas 446 ilhas, viviam milhares de famílias que ainda estão em processo de retirada e reassentamento em loteamentos construídos pelo consórcio Norte Energia, responsável pela usina, cuja primeira etapa já está em operação. Muitas ainda terão que brigar na Justiça por seus direitos, porque a empresa alega que vivem em áreas supostamente livres dos impactos da obra. Essas famílias não entraram nos cadastros para indenização e realocação.
            Como quase tudo que se refere a números nessa história, a quantidade de pessoas deslocadas é imprecisa. Podem ser mais de 50 mil, mesmo excluídas aquelas não cadastradas. Apenas em terras indígenas, serão atingidas três áreas, nas quais vivem aproximadamente dez mil pessoas de uma dezena de etnias.
            Ainda há muitas perguntas sem resposta quando o assunto é Belo Monte – por exemplo: quais os seus reais impactos no futuro? Qual o tamanho total da área a ser alagada? Quanto o empreendimento de fato vai custar? Certeza, diz a antropóloga Sônia Barbosa Magalhães, é que “a construção de grandes barragens é incompatível com a garantia de direitos sociais e a observância de legislação ambiental”. Entre as consequências de uma intervenção como essa, continua, estão a transformação de todas as relações sociais, políticas e econômicas de um lugar em pouco tempo; os processos descontrolados de desmatamento, ocupações de terras e atração de outros empreendimentos (a cidade de Altamira, por exemplo, saltou de 77 mil habitantes, de acordo com o Censo de 2000, para mais de 108 mil em 2015, um crescimento de 40%); e ainda efeitos socioambientais que nem a empresa, nem os deslocados podem prever. “Ou você faz a barragem e viola direitos, ou opta por não fazer”, completa.


Sônia Magalhães: não há como conduzir um processo desses sem violência

            Professora do Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural e de programas de pós-graduação da Universidade Federal do Pará (UFPA), Sônia Magalhães integrou a equipe interinstitucional coordenada pelo MPF. Dela participaram também o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), o Ibama, a Funai, ONGs, representantes dos atingidos e outras entidades. O relatório assinado pela procuradora da República Thais Santi Cardoso da Silva aponta 55 constatações – que, traduzidas em bom português, podem ser consideradas violações.
            Uma das demandas judiciais que o consórcio enfrenta teve sentença proferida no dia 9 de junho pelo juiz Arthur Pinheiro Chaves, da 9ª Vara Federal de Belém. A Norte Energia foi condenada a pagar R$ 18 milhões de indenização por danos morais à população dos municípios paraenses de Altamira, Anapu e Vitória do Xingu pelo descumprimento do cronograma de obras de saneamento básico estabelecido no licenciamento ambiental. Ainda cabe recurso.
            Essa situação não representa novidade para Sônia Magalhães, estudiosa dos efeitos das barragens desde a década de 1980. Em seu doutorado, a professora debruçou-se sobre os efeitos da usina de Tucuruí, também no Pará. Nesse caso, lá se vão mais de trinta anos de promessas não cumpridas aos atingidos, diz a antropóloga nesta entrevista que concedeu numa recente passagem por São Paulo.
            A sombra das promessas não cumpridas já parece cobrir dona Raimunda, uma das removidas compulsoriamente por Belo Monte. Aos 71 anos, a moradora da ilha do Bacabal do Cotovelo recebeu apenas R$ 39 mil de indenização da empresa para deixar o lugar em que viveu por 36 anos. No vídeo gravado pela equipe interinstitucional e exibido pela professora numa palestra, a cidadã expulsa de sua casa lamenta: “Eu tenho fome de justiça. O sonho já foi. Eu tenho sede de justiça, só isso. Quando eu conseguir saciar essa sede de justiça, eu posso ter um sonho. Por enquanto não tenho nenhum. Só esperança”.

(Entrevista a Paulo Hebmüller – viajantedoinverso.blogspot.com.br)


– É inevitável que os processos de deslocamentos compulsórios, como o que está em curso no Pará com a construção de Belo Monte, sejam marcados pela violência?

SÔNIA MAGALHÃES – A violência é intrínseca. Ela começa desde a tomada de decisão até os efeitos que a tomada de decisão gera, repercutindo em transformações intensas na vida das pessoas. Não há como conduzir um processo desses sem violência porque o primeiro direito violado é o direto de ficar. Há também a ideia de futuro do lugar: a sociedade não escolhe o seu futuro – e não me refiro apenas aos deslocados, mas à sociedade que recebe o grande projeto. Ela perde o controle de sua própria história e passa a ficar à mercê de outra história que não necessariamente é a sua. A partir dessas duas características intrínsecas, geram-se outras violências atreladas à gestão. Por exemplo, a chegada de trabalhadores e trabalhadoras, de pessoas de todos os lugares. Há então uma inadequação dos serviços públicos – educação, saúde, saneamento etc. –, uma violência banalizada na sociedade brasileira. Em termos de gestão, é um processo econômico, e evidentemente o objetivo é reduzir custos. Os custos sociais e humanos são sempre minimizados, seja por razões financeiras, seja para a construção retórica do próprio empreendimento.

– Muitas famílias da região de Belo Monte vêm passando pela etapa do deslocamento. A senhora usa a expressão “as famílias estão perambulando” para se referir a essa realidade. Como elas estão vivendo?

SÔNIA – É muito difícil traduzir isso. As pessoas de fato estão, mas não no lugar delas. Estão num “não lugar”, que para mim é a expressão que melhor traduz essa realidade. É um momento de provisoriedade absoluta, em que elas não sabem que rumo vai ser tomado e quanto tempo isso vai durar. Estão procurando uma forma de se encontrar novamente e de construir um novo lugar, porque a ideia de reconstrução não se aplica. Em geral este é o momento da indignação por excelência, porque é a hora em que as famílias se encontram com sua própria história e em que têm que tomar a decisão em relação ao futuro. Ao longo de todo o deslocamento, talvez seja o momento no qual elas mais duramente sintam o processo que estão vivendo. É como a dona Raimunda falou: acabou o sonho.

– Em seu doutorado, a senhora abordou a questão do sofrimento social dos atingidos por deslocamentos compulsórios e da importância desse sofrimento ser legitimado e reconhecido. No entanto, muitas vezes isso não acontece. Qual é o impacto que essa desestruturação tem na vida dessas pessoas e, em segundo lugar, que o não reconhecimento desse sofrimento social gera?

SÔNIA – São dois momentos. A desestruturação em si já é vivida como sofrimento. Alguns autores, dos quais discordo absolutamente, vêm tratando da noção de resiliência, que me parece muito perigosa. É uma noção importada da Física que, grosso modo, admite a existência de um problema, mas postula que as populações e as sociedades encontram um jeito de sobreviver a ele e se recompor. É um perigo pensar nesse conceito e aplicá-lo para esses casos, e o maior exemplo que temos é o Holocausto. Situações de intenso trauma, como o Holocausto e as guerras de modo geral, não são sofridas apenas durante o momento em que são vividas, mas particularmente sofridas quando revividas em momentos sociais. É como se o sofrimento e a dor ganhassem um novo estatuto: eles saem de si e são compartilhados com e pelo outro. Ali o sofrimento se torna aberto e pleno. Ficou muito claro para mim em Tucuruí, e vejo agora em Altamira, o que chamo de lamento: aquela repetição das histórias que vemos em todas as reuniões, todas as falas. Embora as coisas tenham sido vividas individualmente, a narrativa é repetida como se fosse uma só.

– É o lamento de uma perda coletiva?

SÔNIA – O mais impressionante é como as pessoas reconhecem que o sofrimento não tem lugar na arena pública – então elas próprias absorvem a retórica e transformam esse sofrimento em perdas. É como se fossem perdas pequenas: dois pés de banana, um pé de mamão, a dona Raimunda falando da portinha do quarto dela... O que elas usam para expressar o sofrimento que vivem é aquilo que não tem valor na nossa sociedade. Por isso falo num descompasso epistemológico: elas são vítimas desse descompasso na medida em que são levadas a assumir a mesma lógica e tendem a minimizar aquilo mesmo que estão sentindo. Insisto na diferença de cosmovisão, e não apenas por uma diferença cultural: são formas diferentes de pensar a vida. Embora haja uma cultura ou um código linguístico similar, as formas de traduzir e viver isso são completamente diferentes para os ribeirinhos. Um dos momentos em que senti segurança na minha interpretação é quando a dona Raimunda apanha a esteira que era a porta do quarto para mostrar a sua importância. É evidente que não é a esteira que tem importância, mas ela minimiza para nos fazer entender. E nós não temos a mesma capacidade de alteridade que elas têm ao nos querer fazer entender. Para mim, ali está a violência explícita da cosmovisão: não reconhecer o outro, nem como o outro sente.

– No momento em que chega o representante da empresa e comunica a um ribeirinho, a um indígena, a alguém que vive na região há muitos anos, que ele está diante dessa realidade de ter que sair de seu lugar – como se dá esse confronto? Como se chocam essas cosmovisões nesse anúncio de uma remoção inevitável?

SÔNIA – O interessante é que não há esse confronto, porque isso é precedido de um discurso de desenvolvimento e de melhoria da qualidade de vida, o que por sua vez é ancorado na crença muito grande que essas populações têm no Estado. A empresa não vai sozinha, mas vai sempre com algum mediador no qual aquela população confia – não necessariamente um representante estatal: pode ser um vereador, um religioso, um político da região, um sindicalista, uma liderança... A empresa chega acompanhada de alguém que lhe atribua confiabilidade. E também não chega dizendo que a pessoa vai sair, mas que a sua vida vai melhorar. A maioria dos depoimentos dos atingidos por barragens, não apenas na Amazônia, se refere a algo que eles chamam de “as promessas não cumpridas”. O que são elas? Exatamente esse conteúdo do primeiro encontro, que cria uma expectativa.

– E como o processo segue?

SÔNIA – É como ocorreu com os indígenas: o primeiro encontro é sempre de miçangas e germes. Mas há um tempo entre esse primeiro encontro e o primeiro levantamento, em geral feito pelos pesquisadores responsáveis pelo EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental-Relatório de Impacto Ambiental). Eles já levam uma mensagem que não é sobre a catástrofe que as pessoas vão viver, mas sobre a bonança que virá. Isso cria um intervalo entre a notícia, a interiorização da informação e a expropriação propriamente dita. No caso de algumas barragens, há uma mediação política nesse meio tempo que vai tornando a situação mais clara. Em Altamira, se deu algo absolutamente inesperado: as lideranças constituídas, sobretudo aquelas que estavam mais próximas dos agricultores – sindicatos, fundações etc. –, encarnaram a boa notícia e passaram a difundir a mensagem da empresa. O Movimento Xingu Vivo, de uma atuação excepcional, teve dois trabalhos: além daquele normal de denúncia e de esclarecer a população, teve que recompor a organização política local, que foi cindida em relação à barragem. O que o Xingu Vivo conseguiu do ponto de vista político é excepcional, porque houve um racha enorme no movimento social, especialmente entre as lideranças mais próximas dos agricultores. São lideranças que não estavam tão próximas dos ribeirinhos, porque deles nunca ninguém esteve. Os ribeirinhos são invisibilizados nesse processo, e vêm sendo invisibilizados historicamente pela colonização da Transamazônica. A mediação precisa ser construída; não vem por geração espontânea. A ausência dessa mediação e o fato político da sua perda tornam mais grave ainda o que aconteceu com essas populações.


Em Belo Monte não se vive o
Estado de Direito, diz a professora

– No caso de Tucuruí, já se vão mais de trinta anos de promessas não cumpridas...

SÔNIA – Tucuruí está numa terceira fase de promessas. Todo aquele processo de reassentamento e de criação de novos núcleos saiu da mão dos deslocados. Por uma série de circunstâncias, foi apropriado por outros atores, muitos até de fora da região. Estudei profundamente o Loteamento Rural Rio Moju, que em 1983, quatro anos depois do início das transferências, já tinha sido abandonado por 70% das famílias. Há aqui outra questão que diz respeito à violência: cria-se um nexo entre a intervenção, o efeito e a população. Tudo passa a ser atribuído à empresa, e em Tucuruí isso foi muito claro. Em Altamira o que está acontecendo agora é um pouco diferente, porque há uma construção social de desvincular da empresa certos fenômenos e certos efeitos. Tudo está sendo tratado e discutido como se fosse um contexto diverso daquele da barragem.

– Quais seriam algumas dessas promessas não cumpridas?

SÔNIA – O último plano de atendimento para os atingidos é uma história de piscicultura, de tanque-rede, dentro do reservatório, que seria uma maneira de fomentar o que chamam de “retomada da atividade produtiva” – ainda não conseguida, 35 anos depois. E já fracassou.

– Quais seriam as principais irregularidades constatadas na inspeção insterinstitucional da qual a senhora participou?

SÔNIA – No relatório do MPF são apontadas 55 irregularidades, como: famílias não cadastradas; famílias que tinham uma casa no rio e outra na cidade e só tiveram uma delas considerada; pessoas analfabetas colocando impressão digital em termo de aceite da indenização sem testemunhas e sem saber o que estava escrito etc. Uma das equipes de inspeção presenciou uma emissão de posse – ou seja, a expulsão da família da casa – sem apresentação de nenhum documento. As redes de vizinhança e de parentesco no lugar original não são levadas em consideração no reassentamento; a maioria das pessoas é obrigada a aceitar indenizações irrisórias, na faixa dos R$ 20 mil. Uma moradora, por exemplo, tinha casa na ilha e foi avisada que tinha que buscar o resto das coisas dela num certo dia. Mas, alguns dias antes, o pessoal da empresa tocou fogo nas coisas, e quando ela chegou já não tinha mais o que pegar. Há também os cemitérios, que ainda não foram transportados. “Os mortos continuam abandonados”, como eles dizem. São violências e arbitrariedades de todo tipo.


"Ao se fazer uma intervenção dessa magnitude e 
nesse espaço de tempo, não há como respeitar direitos, 
e todos os envolvidos sabem disso. Não dá para acreditar 
nessa história de mitigar efeitos. A ideia de mitigar 
está ligada à ideia de impacto como uma causa e uma reação. 
Mas o que vemos nesses empreendimentos? Que uma causa 
não é uma reação: uma causa são reações 

em cascatas, em espirais, em cubos, 

de todas as formas – e cheias de efeitos não previstos."




– Muitas pessoas também ficaram sem alternativas de trabalho, não é?

SÔNIA – Sim, e algumas profissões serão extintas. Os oleiros, por exemplo, enfrentam esse problema em todas as barragens. Eles trabalham nas minas que ficam na beira do rio. Com a inundação, a jazida desaparece e a profissão também. Eles vão viver como? Em Altamira, há os barqueiros que faziam o deslocamento das pessoas para as ilhas ou para a beira do rio. Agora eles não têm quem transportar. Esse é um dos efeitos não previstos. A Norte Energia responde que não tem nada a ver com o fato de que as pessoas deixaram de viajar... É claro que tem! Essa controvérsia é exemplar: os barqueiros reclamam, a Norte Energia faz uma pesquisa para verificar se houve ou não redução de passageiros – e chega a conclusões estapafúrdias para dizer que, se houve alguma mudança, a culpa não é dela.

– No caso de Tucuruí, fica um pouco mais “fácil” entender a ocorrência dessas arbitrariedades, uma vez que é um projeto cuja execução começa durante a ditadura, num momento em que todo o arcabouço institucional e jurídico do país está conformado na lógica do autoritarismo. É mais difícil entender isso ocorrendo num contexto em que há outro arcabouço institucional, legislação ambiental que não existia antes, movimentos sociais atuantes etc. Porém, as pessoas têm o seu destino colocado unicamente na mão de um consórcio privado que passa por cima dos direitos das populações. É possível comparar esses dois momentos?

SÔNIA – A ditadura nunca poderá ser melhor – nunca. Na verdade, em Belo Monte foi o governo que deixou de lado esse arcabouço institucional, que não está sendo usado com base no efeito de Suspensão de Segurança. Como ali não estamos vivendo o Estado Democrático de Direito, há situações muito semelhantes às de Tucuruí. O que tento expor é que, ao se fazer uma intervenção dessa magnitude e nesse espaço de tempo, não há como respeitar direitos, e todos os envolvidos sabem disso. Não dá para acreditar nessa história de mitigar efeitos. Nós, sociólogos e antropólogos, sabemos que esses são muito mais procedimentos administrativos, que talvez aplaquem as consciências, do que algo realmente sério. A ideia de mitigar está ligada à ideia de impacto como uma causa e uma reação. Mas o que vemos nesses empreendimentos? Que uma causa não é uma reação: uma causa são reações em cascatas, em espirais, em cubos, de todas as formas – e cheias de efeitos não previstos.


"Deslocados deveriam ser vistos como heróis por abrir mão de sua vida
em prol de um pequeno grupo da sociedade brasileira"

– Entre esses atingidos há colonos que se fixaram ali por causa da Transamazônica. Ou seja, foram incentivados por um projeto governamental a ir para lá – e agora são deslocados por conta de outro grande projeto.

SÔNIA – Esses colonos têm discursos monumentais sobre isso. Em alguns lotes, você encontrava até a terceira geração da família, muito bem estabelecida naquilo que poderia ser o sonho deles – e, para os que conseguiram sobreviver à Transamazônica, foi esse sonho, com o gado, o igarapé, o cacau, árvores frutíferas enormes... É de uma beleza incrível! Uma vez o Lucimar da Silva, que é um colono poeta, me disse: “essa terra foi o meu pai que me deu quando casei”. O pai era um migrante da Transamazônica. O investimento da vida inteira dele estava lá. Saíram o Lucimar, um irmão e o pai. Eles compraram outras terras e estão no município de Placas, distante de Altamira. Eles receberam mais de R$ 1 milhão de indenização. Ora, para receber esse nível de indenização, é preciso ter muita coisa na terra, muito trabalho e muita produção. Eram três grupos domésticos trabalhando e estavam sedimentados. Era o seu lugar. Até hoje eles dizem: “nós tínhamos tudo. Só não tínhamos estrada, saúde e educação”. Ou seja, só não tinham Estado.

– O discurso ideológico que sustenta isso tudo é o discurso do desenvolvimento, comprado inclusive por boa parte da sociedade. Esse desenvolvimento é real e chega às pessoas nos lugares das grandes obras?

SÔNIA – No local, não. A energia não é para a área rural de lá. O desenvolvimento, como ideologia e como fato, não é pensado para todos; é pensado para poucos. Quem pensa em desenvolvimento não está pensando no que se poderia chamar de maioria, mas sim num determinado grupo social. Costumo usar a metáfora de que esses contextos de barragens são contextos de inundação: joga-se a boia e quem a pega se salva. Quem não pega morre afogado. Há determinadas famílias e determinados grupos sociais que estão prontos, pegam a boia e conseguem nadar, mas isso não quer dizer que é a maioria da população que passa a ter serviços melhores. Os indicadores sociais dos municípios que formam a região de Tucuruí não são melhores do que no resto do estado. Levanto isso não porque acredite nesse tipo de indicador, mas apenas para usar os elementos do discurso do desenvolvimento. A mesma coisa ocorre hoje em Carajás, onde está a mineração, que consome a maior parte da energia de Tucuruí. Nos municípios mineradores, os indicadores também não avançaram. E as compensações ambientais até agora não demonstraram que são capazes de interromper os processos desastrosos desencadeados pelos empreendimentos.

– É possível desconstruir esse discurso?

SÔNIA – Um estudo recente que engloba outras barragens no mundo mostra que, no contexto dos empreendimentos, esses indicadores não melhoraram. Talvez esse fosse um argumento mais próximo do nível de gestão. Mas creio que a desconstrução efetivamente só vai ocorrer quando a sociedade tiver outros valores hegemônicos. Enquanto se pensar que vale a pena quebrar os ovos para fazer a omelete, não há como desconstruir. É preciso mostrar evidências como essas da violação de direitos e da situação das populações, dialogar sobre as perdas de diversidade e sobre os ecocídios, a morte dos rios... Mas se, apesar disso, ainda se achar que o desenvolvimento vale a pena, não sei o que responder.

– A senhora diz que esses atingidos pelas barragens deveriam ser vistos pela sociedade com a solidariedade com que são vistas as vítimas de acidentes naturais como as enchentes. Por quê?

SÔNIA – Porque a experiência de desastre ambiental e de perda de seu lugar inundado é muito similar. Mas a formação do lago não é vista como uma inundação, e a construção de uma hidrelétrica não é vista como um desastre – e ela é um desastre socioambiental extremamente grave. Todos os dados demonstram isso. Por isso pergunto: por que as pessoas não se sensibilizam diante de uma situação tão similar? Evidentemente eu sei por quê: exatamente por causa dessa construção ideológica. Mas creio que o meu dever é fazer a pergunta para que as pessoas se interroguem. A desconstrução cada vez mais depende do reconhecimento do desastre ambiental. Mas não basta apenas se sensibilizar: nós, sociedade, temos que reconhecer essas populações como heróis, pois elas abriram mão forçosamente de sua vida e de suas histórias em prol de um pequeno grupo da sociedade brasileira. O mínimo que teríamos a fazer é reconhecê-las como pessoas diferenciadas. Elas passaram por situações que muitos não foram forçados a passar. Em primeiro lugar, elas não merecem passar por isso. E, se passaram, merecem mais, muito mais do que o que se tem atribuído a elas.