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domingo, 22 de março de 2020

Mia Couto: “Temos que saber criar um espaço nosso, soberano, onde apesar de tudo podemos ser felizes”


Paulo Hebmüller
viajantedoinverso.blogspot.com


Mia Couto: "Não podemos corresponder a esse convite que nos é feito para odiar o Outro"
Foto: Fronteiras do Pensamento


Literatura, memória, fronteiras, política e liberdade foram alguns dos temas abordados pelo escritor moçambicano Mia Couto numa conversa com o público no VI Colóquio Internacional Áfricas, Literatura e Contemporaneidade, em São Paulo.
A conversa, no dia 17 de setembro de 2019, lotou dois auditórios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP: num deles o escritor ocupou a mesa, ao lado da professora Rita Chaves, docente de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na FFLCH; no outro, o público acompanhou o encontro por um telão.
Depois de uma breve introdução na qual falou de como, ainda menino, ajudava o pai a “contrabandear” livros para dentro de casa, driblando a vigilância da mãe, Mia respondeu a perguntas da plateia.
O texto a seguir traz uma edição dessa conversa. O vídeo com a íntegra do encontro está disponível aqui.

***

Eu tinha combinado com a professora Rita que isto seria uma conversa, e há dois ou três dias ela perguntou – “e qual é o título?” Eu não sabia que as conversas tinham título [risos]. Ela disse que essa conversa tinha que ter uma justificação, qualquer coisa que era preciso fazer… Então inventei uma coisa que já nem sei o que é [O que os livros me deram], e vou conversar convosco.
Quero fazer uma homenagem à professora Rita Chaves: ela é o exemplo mais vivo que eu conheço de como é que as coisas acontecem não porque haja instituições – para além das instituições, há pessoas que fazem coisas. Quando ninguém pensava em África do ponto de vista literário aqui no Brasil, a Rita fez isso com um grupo muito pequeno.
Nós tínhamos uma inveja enorme, porque tanto a Rita quanto a professora Tânia Macedo estavam mais interessadas em Angola, enquanto nós congeminávamos como podíamos raptar essas senhoras para dar atenção àquele outro lado do Índico.
Mas é realmente graças ao trabalho sistemático, trabalho feito com paixão, que possivelmente estou aqui. Estou aqui por causa da Rita Chaves, em grande parte.
Acho que devemos fazer uma salva de palmas para ela [palmas].

Eu sou filho de um escritor, filho de um poeta, então digamos que os livros habitavam a minha casa, forravam as paredes, às vezes as janelas mesmo. Aquilo era um problema para a minha mãe, porque nós não éramos ricos. Houve um tempo em que meu pai foi despedido por razão de uma ditadura fascista e colonial, e esses dois lados se alimentavam reciprocamente.
Houve uma altura em que o meu pai estava proibido de trazer mais livros para casa, e ele combinou comigo que eu era quem fazia o contrabando: ele aparecia em casa, me chamava cá fora e eu metia o livro dentro da camisa e passava. Aquilo me dava um enorme prazer: antes de saber exatamente o que era o valor de um livro, eu sabia que aquilo valia muito, porque era cúmplice desse jogo, dessa malícia organizada com o meu pai e que convertia o meu pai num menino como eu. De repente estávamos os dois conspirando contra a minha mãe, que era uma coisa que nos dava um duplo prazer também. Então os livros aconteciam dessa maneira.
Devo dizer que o meu pai nunca nos mandou ler – somos três filhos. Ao contrário, às vezes nos dizia: “vão brincar, vão viver, e depois vão encontrar no livro aquilo que encontraram na vida”.
Meu pai não era exatamente só um poeta; meu pai vivia em estado poético, o que era outra tragédia para minha mãe, que rezava todos os dias que não aparecesse mais nenhum filho com essa doença… Ela não rezou bem, não sei… [risos]

Houve esse tempo em que meu pai ficou desempregado e que tinha que responder a interrogatórios da polícia fascista, e a gente ficava em casa à espera que ele voltasse. Meu pai não tinha história para contar se não das aves que ele tinha visto no caminho quando voltava para casa: falava das garças, dos pelicanos, dos flamingos – e nunca aquele homem se queixou; uma lamúria, um ressentimento qualquer que nos entregasse. Como se ele estivesse a dizer a todo momento que há coisas que têm uma importância que a gente não vê, que há coisas que são eternas e que a gente tem que ter essa sensibilidade para as descobrir.
Também com ele aprendi algo que depois Manoel de Barros me confirmou, tantos anos mais tarde, que era o valor de descobrir coisas no meio da poeira, no meio do lixo; as coisas desvalidas, que são recolhidas como se fossem o brilho maior do mundo. Isso eu encontrei nos livros porque encontrei na vida. Tive essa felicidade de que os livros foram vividos antes de eu os ler.
Sou um mau leitor. Ainda há alguns dias assisti a alguém que dizia: “com 12 anos lia Proust, Stendhal...” Nada disso. Eu fui tardio. Fui muito ligado à poesia desde o princípio. É, digamos, a minha grande fonte. Acho que o predomínio da oralidade, daquilo que é sentido, que é vivido, que é sonhado por via da palavra, por via do verbo, é tão presente que é preciso perceber que isso não é qualquer coisa menor.

É muito curioso, em Moçambique, que os livros instalam de uma maneira muito clara essa fronteira entre o pensamento escrito, a lógica da escrita, e a lógica da oralidade. As pessoas funcionam de maneira diferente. A pergunta que faço a mim próprio é quanto disso existe vivo dentro de mim, porque a certa altura esse pensamento que nos conduz, que nasce na escrita e se consolida na relação com a escrita, se torna absolutamente hegemônico, e digamos que empurra para o lado da oralidade, das “pequenas histórias”, aquilo que é menor. Como se contar histórias fosse uma sobra, um resquício da infância, e a poesia fosse uma linguagem, vamos dizer, dos vagabundos…
As pessoas valorizam a escrita em Moçambique como sendo um universo a que não têm acesso, mas que é onde acontece o poder – e por isso o escritor é parado na rua muitas vezes como um mensageiro, como alguém que passa essa linha de fronteira. Muitas vezes me param na rua não para tirar uma fotografia ou para pedir um autógrafo, mas para dizer: “olha, diga isto, transmita isto” – e não sei nem exatamente o que ou a quem, mas as pessoas sabem. Esse papel de mensageiro para mim é fundamental.
Uma das coisas que eu gosto é que as pessoas pensam através de histórias e contam histórias todo o tempo. É impossível não ser escritor – portanto eu não tenho nenhum mérito nisso – num país onde as pessoas têm essa capacidade de sonhar e de perceber o mundo através de histórias.
Muitas vezes, quando eu peço uma explicação de alguma coisa muito complexa, do ponto de vista por exemplo da ciência que eu abracei – mas já não sei se ela me abraça a mim também –, a explicação é dada por via de uma história. Só o que é convertido em história ganha a dimensão da realidade. Isso mostra que há uma outra maneira de medir e de pesar o que é o real, o que é o fantástico, e como não se aplica realmente essa categoria do realismo fantástico a quem vive numa situação dessas – e não é que sejam os africanos que vivem nessa situação; todos vivem. Os europeus vivem na mesma situação e eles próprios produzem literatura que nós, fora da Europa, vamos etiquetar como sendo realismo fantástico etc.

Vivo num país que tem essa felicidade de ainda não ser completamente um país, que não está formatado, sedimentado. Há nações diversas que estão convivendo e disputando para ter mais presença, e a língua portuguesa é, digamos, um palco em que essas brigas e esses namoros ocorrem. Isso significa que essa língua está aceitando, está rejeitando, está viva, tem uma dinâmica enorme, e esse é um lugar fantástico para estar como escritor. Eu dou graças à vida por viver nesse lugar, por ser parte desse lugar e por ser parte desses processos históricos que levam a que se crie uma língua que está em movimento e que possa dizer Moçambique.
Como isso se opera na escrita? Como um livro abre espaço para que essas vozes, que pensam de outra maneira, que realizam a língua portuguesa de outra maneira, caibam dentro de uma página de livro?
Essa experimentação é feita não só por um escritor solitário, que está em casa pensando como criar alguma coisa nova, mas é feita pelas pessoas no seu cotidiano. Todos os dias há uma surpresa, todos os dias há um espanto de uma palavra nova que se encontra, de uma construção nova que se revela muito poética ou produtiva mesmo. 
Isso é o que posso dizer da minha relação com a escrita e da minha relação com os livros, sobretudo no momento em que eles ainda não são livros e em que ainda não foram escritos.
Um jovem que me encontrou na rua disse: “Eu tenho muitas histórias. Quer ouvir?”, e me contou várias histórias. Dizia ele: “Eu quero ser escritor” – muitos querem ser escritores. Ele começou a me contar histórias e eu disse: “Bom, agora só falta transportar isso para o papel”. E ele perguntou assim: “E eu vou ter que escrever mesmo por escrito?”
O escritor funciona como um tradutor – no fundo um tradutor de mundos, um tradutor de lógicas. Não só porque há várias línguas em Moçambique – mas um tradutor é no sentido mais clássico alguém que intervém transportando o universo de uma língua para outra, de uma nação para outra, e também na fronteira entre o oral e o escrito.
Como fazer com que a literatura, a palavra escrita, tenha essa vitalidade, essa cor, esse cheiro que carrega a palavra oral? Esse é o grande desafio que nós temos como escritores numa realidade como a de Moçambique.
Acho que isso já chega como pontapé de saída para que a gente fale de todo o resto. Não fiquemos amarrados a isso: eu só tive que dizer essa coisa porque tinha que justificar o tal título. Então partamos para uma conversa livre e improvisada como são as conversas. E no Brasil não é difícil conversar; o difícil é parar a conversa.

[Perguntas da plateia] 

Acho que a gente vive um momento no mundo de entrar em contato com as várias fronteiras. Eu queria uma reflexão sua sobre as fronteiras: como a gente eleva a ideia do escritor em língua portuguesa e tenta ao mesmo tempo diluir as fronteiras?

Não sei se compreendi bem a pergunta, mas vou fazer de conta que entendi e tentar falar sobre como ela me tocou.
Eu defino a mim próprio – ou fazia isso antes, agora já não sei o que é – como uma criatura de fronteira, porque sou um africano que é filho de europeus; um africano que é branco; um ateu no meio de um universo profundamente religioso; um cientista num mundo que acredita em coisas invisíveis e mágicas; um escritor num mundo da oralidade etc. Por mim passam mil fronteiras. Me apetece ser contrabandista dessas realidades e também o modo como Moçambique neste momento vive essas fronteiras duma maneira desdramatizada – isto é, a pessoa ao mesmo tempo poder ser várias coisas, pode ser algo que provavelmente não existe em outros lugares do mundo, pode ter várias religiões ao mesmo tempo. De manhã é uma coisa e à noite é outra, sem que isso seja um drama e sem que seja esse mundo da dualidade bem definida: eu tenho que ser isto ou aquilo – as pessoas são isto e aquilo.
Para mim me apetece poder ser esse atravessador de fronteiras desvalorizando-as, num momento em que essas fronteiras hoje também têm um serviço político bem claro: elas estão sendo construídas de maneira que se possa, digamos, fundamentar o medo. Elas já resultam disso, de uma criação do Outro como desconhecido, como inimigo potencial.
Portanto, mais do que nunca é preciso saber que uma coisa é a busca da identidade, que é permanentemente necessária – mas que essa identidade seja sempre fluida, volátil, e que a gente não perceba como um drama: eu tenho que ser uma coisa. Não há problema nenhum em que eu deixe de ser no momento a seguir.


"Não saber fazer bem o capitalismo pode ser uma grande virtude"
Foto: Fronteiras do Pensamento

Antes de escrever Sagarana, Guimarães Rosa falava que os personagens rondavam o imaginário dele e pediam pouso em papel. Você é capaz de transformar qualquer pensamento em poesia. Como você consegue colocar essa magia toda em personagens como o Kindzu (de Terra sonâmbula), por exemplo? Você viveu essa mágica dentro da sua vida?

Não sei explicar [risos]. No processo que eu uso – é um caos absoluto, mas vamos chamar de processo –, tenho que me apaixonar por uma personagem, por um momento, por uma situação, por uma fala, por qualquer coisa que me convoca absolutamente e que me coloca num estado quase de embriaguez. Eu vivo isso, digamos, como um ébrio convive com a garrafa. Essa personagem, essa situação ou essa fala estrutura o resto: tem que ter vida, tem que ter sedução suficiente para que viva dentro de mim, e isso depois é que convoca a história.
Eu não começo nunca pela história, não sei fazer assim. A história não está estruturada, não existe uma arquitetura. Essas personagens, se estão vivas, se me habitam, se são eu próprio, então sim elas me levam.

Quem são os escritores da literatura brasileira contemporânea que você tem lido e por quê?

Tenho lido pouco. Estou muito preso a uma pessoa que eu conheci, o Julián Fuks, que conviveu comigo porque participamos de um mesmo programa de tutoria – não gosto dessa palavra… Gosto muito do que ele faz e ele vai publicar agora um livro do qual eu vou participar [A ocupação]. A minha parte, felizmente para ele e para os leitores, é só um pedacinho.
Não tenho nenhuma grande relação com uma literatura mais moderna, mais desligada das histórias, uma literatura mais pós-moderna, que vive naquele sofrimento e que acha que a ausência da história valoriza a própria literatura.
No caso dele, é alguém que atravessa isso dizendo: “Eu estou, eu moro nisso, mas quero fazer outra coisa, portanto quero viajar para alguma outra coisa”.

Você se recorda de alguns dos livros que você contrabandeava? E o que é memória para você? Qual é a obra que habita esse imaginário da memória?

Como aqueles condenados que estão perante o julgamento, eu diria que não me lembro dos livros que contrabandeei. Mas imagino que seriam coisas de poesia, alguns brasileiros mesmo. Meu pai era muito ligado à poesia da França, da Espanha, de Portugal… Acho que seria basicamente isso.
A memória é um assunto que me ocupa, até porque eu sofro da falta dela imensamente; sou quase um caso clínico. Ocupa-me porque, instituída do ponto de vista individual ou coletivo, qualquer que seja o coletivo – uma nação, um grupo etc. –, ela é quase sempre uma construção feita de esquecimento. É como se fossem os dois lados de uma mesma moeda.
No caso de Moçambique, é muito claro esse percurso que percorremos para se fazer uma nação e o quanto se teve que esquecer: o quanto que se teve que lembrar, mas é mais o que se tem que se esquecer. E o quanto uma nação é feita do modo como esquecemos juntos.
Da mesma maneira que o que somos é feito como uma espécie de acordo conosco, com as várias dimensões interiores que temos: aceitamos que há coisas que não aconteceram; qualquer coisa que se apagou dentro de nós.
Eu tenho essa relação com a memória como tenho com as fronteiras: o melhor é não pensar nela, é não questioná-la tanto assim.
Vou usar uma coisa que é do meu cotidiano: eu percebi que sofria muito quando as minhas filhas – as duas filhas, meu filho já não vive em minha casa – e a Patrícia, minha mulher, no café da manhã, começavam a contar os sonhos, e eu não tinha sonho nenhum para contar. Eu sentia-me desvalido e pensava: olha, tenho que inventar um sonho rapidamente… Comecei a inventar sonhos, e fazia o relato com toda a convicção.
Depois eu percebi que não mentia tanto assim, porque o que elas contavam como sonho era uma reelaboração, era alguma coisa que, para ser completamente “verdade” – se é que a gente pode pôr verdade nisso –, pedia uma linguagem que não existe, que é a linguagem dos sonhos. Um sonho só pode ser relatado numa linguagem dos sonhos. Então eu agora já invento. Os meus irmãos dizem, quando estou a contar: “nunca estiveste lá, não foi assim”.
No livro que estou a fazer – o primeiro que faço de memórias da minha própria adolescência e infância –, eu vou por aí. Não me interrogo sobre quanta verdade tem o que estou a fazer lá.
Sobre a obra literária… Eu não sei. Há um livro que está na minha cabeceira permanentemente, que é o Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa, que não fala exatamente disso, mas que pensa o modo como nós construímos esse tipo de coisas que são os grandes qualificativos humanos: da memória, do pensamento, do sentimento. Ele me ajudou a resolver algumas coisas que pareciam que tinham necessidade de um psicanalista ou de um psiquiatra mesmo.


Sobre o último livro da trilogia das Areias do Imperador: por que retomar essa história do fim do Império de Gaza por meio de duas personagens, a Imani e o Germano?

Não me interessa falar no passado, interessa-me falar no presente, e usei esse passado simplesmente como pretexto para questionar o presente, que tem muito a ver com algumas situações de conflito, de poder. O que está naquela história são essas condições históricas que nunca foram resolvidas, como a situação da mulher.
Interessam-me a Imani e a família da Imani como um palco onde acontece esse tipo de conflito dentro de uma família e no seio de uma pequena aldeia. Para mim, a Imani que atravessa aquele livro é toda mulher moçambicana no seu percurso.
O Germano interessa-me como um Outro que nos ajuda a ter um retrato próprio, digamos assim. Realmente Moçambique tem uma condição muito curiosa porque quem desenhou as fronteiras e deu o nome ao lugar era um tal Mussa Bin Bique. É muito curioso isso, porque os portugueses, quando chegaram àquele território, que não tinha nome para eles – e dar o nome, isso está no livro também, já é uma atitude de poder –, o chamaram de terras de Mussa Bin Bique, que era um sultão que respondia perante o sultanato de Zanzibar. Isto é, essa pessoa que dá o nome a Moçambique, se hoje voltasse para lá, teria que pedir um visto.
O Germano está ali como alguém que ajuda a definir esse contorno: o Outro e nós, o dentro e o fora. Eu usei-o nessa perspectiva, e sobretudo porque me apetecia mostrar que isso, que era tido como Portugal ou os portugueses, não era uma coisa tão simples, era uma coisa fraturada. Era uma coisa que tinha os seus próprios conflitos, e isso me parece uma coisa importante a ser dita dentro de Moçambique também.

Qual é o desafio de um escritor, sobretudo africano, pensando em novos tempos em que há esse confronto entre o tradicional e uma modernização transformando até a produção de memórias e de narrativas?

Acho que a condição de um escritor africano pode ser como a de um brasileiro – não sei por que não é comum a todos os outros escritores do mundo, não é? –, de como lidar com esse apagamento da memória, que é uma tentação política da parte de certas elites que querem reconstruir a sua própria legitimidade a partir de uma história que foi silenciada.
Aqui no Brasil isso é muito claro. Em Moçambique existe um pouco essa tentação de haver uma única voz que dá sentido à “grande História”, e isso está sendo questionado. É um assunto que passa para muito além da literatura. Essa manipulação do tempo é tão clara como alguma coisa que, para dominar os outros, é preciso que esses outros não existam e não tenham sustentação histórica.
Não sei quanto o Brasil recorda a ditadura militar ou quantos querem que isso não seja recordado, ou quantos querem que isso seja recordado de uma certa maneira. Um fato histórico pode ser manipulado de diversas maneiras. 

O que significa a presença da água na sua obra?

Significa para mim, antes de mais nada, uma presença que inundou literalmente a minha própria infância. Eu sou de uma cidade [Beira] que nasceu de um engano geográfico: disseram para construir do lado direito e a pessoa construiu do lado esquerdo. É ótimo ser de uma cidade que nasce dessa desobediência. E a cidade nasceu sobre um pântano, onde seria impossível haver uma habitação humana. Mas está lá, com grande resistência.
E a cidade é inundada periodicamente – mesmo diariamente. Eu vivi em bairros em que lembro da minha mãe dizer: “volta antes da maré”, porque o mar era o grande relógio. Às vezes digo que os outros têm uma terra natal e eu tenho uma água natal. Como uma referência para a minha escrita, posso dizer que há essa explicação mais terra a terra.
Do ponto de vista simbólico para as culturas de Moçambique, há sobretudo na chuva uma relação divina com o invisível. É sobretudo a chuva, não o mar; alguns lagos sim são sagrados porque ali estão espíritos – e há aquele símbolo da água que é universal, da vida, do renascer…

A sua vida atravessa o contexto colonial e o contexto pós-colonial em Moçambique. Como esses dois momentos históricos impactaram na sua vida como escritor? E da sua obra, qual é aquele livro pelo qual você tem um carinho especial?

Começando pelo fim: se me perguntarem isso amanhã, digo diferente, mas acho que o livro que me ajudou a resistir contra um momento de desumanização que era profundíssimo – depois de 16 anos de guerra civil, eu pensava que não era capaz de escrever sobre aquilo que vivi – foi Terra sonâmbula.
Terra sonâmbula permitiu que eu fizesse paz com uma série de fantasmas que me assaltavam. Houve colegas meus que foram mortos na guerra, houve amigos meus que desapareceram, sonhos meus que se anularam. A guerra nos faz anular, nos faz pensar que não há alternativa nenhuma. Ser capaz de ter começado esse livro, esse livro ter acontecido dentro de mim… Acabei o livro e logo a seguir foi o acordo de paz. Não é o que eu mais gosto, mas é o filho que me deu mais trabalho.
As minhas vidas em dois tempos diferentes, no tempo colonial e no tempo pós-independência, são vidas completamente distintas, principalmente do ponto de vista humano, do ponto de vista racial. A sociedade colonial não tinha preocupação nenhuma em esconder essa violência do racismo, e depois da independência isso se converteu numa outra coisa. Não quer dizer que a situação do racismo em Moçambique esteja resolvida, mas não tem absolutamente nada a ver com aquilo que era ter uma raça no tempo colonial.
Isso era tão gritante que o que me fez mobilizar para a luta pela independência foi sobretudo o que eu via no cotidiano da minha cidade. A maneira como as pessoas negras eram discriminadas, maltratadas, passavam da inexistência até a existência do ser culpado, do ser maléfico: isso era muito doloroso.
Eu acho que vivi isso – foi um privilégio, toda a minha geração viveu situações de contraste que não foram só essas. Tivemos situações de guerra e situações de paz que nunca foram completamente uma coisa ou outra.
Agora, a situação pós-colonial tem muito do colonialismo que continua vivo. Nós importamos uma ideia de “desenvolvimento” – e esse já é um termo que tem que ser questionado – que assenta sobre os pressupostos coloniais de maneira clara. Continuamos a ser exploradores de matérias-primas, continuamos a ter uma relação com o mundo que é bastante colonial. Mas também do ponto de vista dos universos que são políticos – por exemplo, nós vivemos um período de socialismo marxista-leninista etc., e vivemos intensamente como se fosse uma ferramenta para nos libertar. E agora vivemos sob um capitalismo e sempre acontece a mesma coisa – não era o socialismo que a gente pensava que era, não é o capitalismo que a gente pensa que é. Não sabemos fazer bem nem uma coisa nem outra. Pode ser uma virtude. Sobretudo não saber fazer bem o capitalismo pode ser uma grande virtude.


"Neste contexto talvez a palavra 
mais importante seja liberdade – porque 
ela está sendo ameaçada todos os dias. 
Parece que há um passo dado que pode 
destruir a liberdade que ainda existe no Brasil"


Como você vê o fazer literatura – a literatura sob a ótica do trabalho, não só do ponto de vista do retorno financeiro? Você tem uma ética de trabalho?

Eu acho que sim. Tenho uma ética que é anterior à escrita: a minha ética como pessoa, meu posicionamento perante o mundo, e isso tem que se refletir no trabalho que faço como escritor. Financeiramente é um logro, porque quem enriquece – está aqui a representante da editora: não digas isso lá na editora [risos] –, mas normalmente não é o escritor que fica rico, porque ele recebe uma parcela… É muito injusto. Sempre se pensa que os explorados são os trabalhadores manuais etc. Mas não são só. Não posso queixar-me muito, mas a margem que vai ficando entre editor, distribuidor, livreiro e o resto... O que é menor fica para o escritor. Quem quiser ficar rico pela via da escrita precisa pensar duas vezes.
Eu tenho que explicar à minha família, sempre que abrem a porta e eu estou lá sentado em frente ao computador, que eu estou fazendo alguma coisa. É um pouco a ideia de que o escritor está sempre ocupado, mas nunca faz nada.
Não abdico de ter coisas várias que eu faço. Eu continuo a ser biólogo e a exercer a profissão porque quero ter essa relação múltipla com o mundo, ter várias janelas por onde eu possa espreitar e também trabalhar com uma equipe. A escrita pode ter uma tentação muito fechada, muito solitária.

A Festa Literomusical de São José dos Campos (FLIM) [cuja sexta edição foi realizada em setembro de 2019] foi muito especial para as três mil pessoas que estavam lá. No final do evento, fizeram uma pergunta sobre qual palavra você escolheria para fechar a FLIM e você escolheu liberdade. Acho que para todo mundo que estava lá isso foi muito significativo porque houve várias manifestações e tudo conduziu para aquele momento. Seria muito importante para a gente também entender o porquê da escolha dessa palavra e como essa palavra se ressignifica hoje na sua obra, em Moçambique e sobretudo aqui no Brasil, em que estamos vivendo dias tão difíceis.

São José dos Campos foi um momento para mim, porque aquilo era o encerramento de uma festa literária que acontecia num lugar bonito, num lugar com história, e a história é que a comunidade em volta do parque [Vicentina Aranha] se apropriou do parque e resistiu contra a ocupação que a gente conhece qual é – tornar aquilo “rentável”. Eu já me sentia bem porque era um lugar que eu podia adotar como casa – e depois vieram dizendo que tinha que se mudar o palco, porque havia mais gente do que se pensava.
O que me pediram no fim é que eu escolhesse uma palavra, e é sempre difícil esse jogo de escolher uma palavra, e ocorreu-me que neste contexto do Brasil talvez a palavra mais importante seja liberdade – porque ela está sendo ameaçada todos os dias. Parece que há um passo dado que pode destruir a liberdade que ainda existe no Brasil.
Eu sempre me ponho essa questão de que sou estrangeiro. Eu tenho que ter respeito, tenho que saber conter-me, não quero ter essa arrogância de chegar aqui ao Brasil e dizer coisas para os brasileiros. Os brasileiros sabem muito bem o que querem e não precisam de um escritor que venha do outro lado do mundo para dizer coisas.
Por outro lado, acho que atraiçoaria o sentimento que tenho para com o Brasil se eu não dissesse certas coisas e como nos preocupa, aos escritores de Moçambique, e acho que aos moçambicanos também, este assunto que não é só partidário, que não é só a escolha política entre direita e esquerda: é um assunto entre a democracia e a ditadura. Isso me parece que tem que ser dito.
E me parece que essa ditadura é como se fosse um programa que está lá: quem foi eleito não se sente no regime que ele quer, e de uma maneira clara, porque foi dito antes, foi dito depois, que a democracia é um estorvo, uma chatice, que é preciso eliminar para se poder governar no território exclusivo dessa ditadura.
A maneira como as instituições democráticas e o Estado de Direito são atacados, como se ofende aquilo que é a independência dos poderes… Todos os dias há uma notícia que fala sobre isso, mesmo quando essa notícia é secundarizada por uma coisa mais escandalosa que é dita e que parece uma poeira que se faz para conduzir a uma certa distração.
Acho que isso tem que ser dito, de uma maneira humilde. A única coisa que podemos dizer é que estamos solidários com essa luta, com essa resistência. O fato de que os livros continuam a existir, continuam a convocar pessoas para conversar – as três mil pessoas que estavam em São José, numa festa; isso não tem nada a ver comigo: tem a ver com o fato de que as pessoas estão ali porque querem falar sobre cultura, sobre literatura, e isso será muito difícil qualquer um no Brasil anular como pensam que podem fazer.
É uma declaração mais de solidariedade: dizer que estamos convosco nessa briga. [palmas]

A primeira obra sua que li é Vozes anoitecidas, e provavelmente é o meu livro preferido na vida. Em vários contos aparece a figura do pássaro. Qual a simbologia desse pássaro, seja pessoalmente ou em Moçambique?

Não sei que simbologia isso tem para mim, mas provavelmente a minha relação com os pássaros é uma relação nunca resolvida. Quando eles entram nas minhas histórias, é porque literalmente entraram na minha vida.
Vivem comigo três corujas que caíram do ninho. Eu cuidei delas e já não posso libertá-las, porque já não sabem viver de outra maneira. Nunca pensei que iria ter pássaros, mas eu não tenho pássaros: de uma certa maneira eles é que me têm a mim; eu sou quase posse deles.
Escrevi um conto que se chama “Pássaros de Deus”, em que há um pescador e cai uma garça em sua canoa. Ele pensa que essa garça é um teste: Deus está tentando provar a sua bondade. E contra tudo e contra todos ele quer proteger aquele pássaro. 
Eu trabalhava na estação de biologia de uma ilha e um dia caiu uma garça exatamente como aquela – pequena ainda, muito jovem. E eu trouxe aquela garça para o meu quarto, e lhe dava de comer, e a garça adotou-me como tio ou como tia, e eu entrava e ela saltava… Um mês depois, eu voltei para Maputo e pensei – não posso deixá-la. Perguntei aos meus colegas, pelo amor de Deus, alguém fique com esse pássaro, e ninguém queria ficar. Atravessei de barco para a capital com o pássaro amarrado e, quando cheguei ao outro lado, o homem do táxi disse – “não, não entra pássaro aqui no meu carro”.
Então percorri a cidade com aquele pássaro que só olhava para mim e pedia comida, porque estava cheio de fome. Quando cheguei em casa, a Patrícia abriu e porta e perguntou exatamente aquilo que tinha perguntado essa senhor no centro: “estás maluco? Vais trazer um pássaro para casa?” Ela não disse “vamos comer o pássaro”, como disse a senhora do conto. Mas quase era isso…
Então caem-me pássaros na minha vida, tombam pássaros na minha vida.
Do ponto de vista científico, eu sou ecologista da área vegetal e não tinha nada a ver com pássaros.
Vou contar só esta história, porque tem a ver com Moçambique. Fui mandado para uma floresta no norte do país, no Niassa. Como não havia ornitólogo, meus colegas disseram – “ah, mas tu és poeta, tratas de pássaros e não sei o que, vais classificar os pássaros”. E eu fui com um velho de uma aldeia próxima que teria que identificar na sua língua o nome dos pássaros, que era mais um elemento para depois eu chegar na classificação final. Eu estava morto de cansaço, quatro horas da manhã, andava entre as pedras de um rio com um calhamaço, um volume com a identificação dos pássaros que só me atrapalhava.
Então, rapidamente escutei o primeiro pássaro e perguntei ao homem: “olha, esse pássaro que está a cantar aqui, como é que vocês chamam?” E ele: “qual pássaro?” “Este que está a cantar aqui atrás desse arbusto.” E ele disse assim: “bom, esse pássaro nós aqui em Niassa não chamamos bem, bem pássaro, nós chamamos sapo”. (risos)
Então era só uma questão linguística… Eu fiquei com uma raiva enorme e decidi: vou estudar pássaros, e hoje sei de pássaros.

Qual é a sua relação com as ciências mais duras, como a física, a matemática, e como você traz isso para os seus livros? E qual a sua relação com a ficção científica?

Com a ficção científica, não tenho relação literária. Praticamente, quando faço ciência, estou a fazer ficção científica (risos).
Eu não tenho boa relação nem com ciências duras nem com ciências menos duras. Eu estou lá como visitante – não deveria dizer isso num lugar em que há uma faculdade de Geografia… Eu sou biólogo, mas na verdade só me interessa a biologia como uma ponte, como uma possibilidade de conhecer outras lógicas, outras línguas. É como se eu quisesse perceber que a árvore tem alguma coisa para dizer e eu quero aprender isso. Desse ponto de vista em que eu possa reconquistar uma relação de parentesco e intimidade com as criaturas: é isso que me interessa. De resto, não sei se serei um bom cientista, porque acho que a ciência só dá uma resposta. Essa resposta é importante, mas é preciso compor outras respostas com outras sabedorias, outras linguagens.


Mia Couto autografa seus livros depois da conversa com o público na FFLCH
Foto: Paulo Hebmüller

Tenho pensado nas suas obras a partir de um martinicano chamado Édouard Glissant. Ele diz que as nações atravessadas por processos violentos, especialmente o colonialismo, precisam de narrativas para se reafirmar: essas sociedades precisam de um épico, e a literatura contemporânea tem esse papel de formá-lo. Porém, é um novo épico baseado em sujeitos que não têm voz e que precisam da literatura para ter essa voz, que se dá de forma multilíngue nas narrativas. Eu percebo isso nas suas obras quando você dá voz para crianças, idosos, mulheres... Vale dizer então que você está a fabular esse épico moçambicano?

Essa pergunta é extraordinária, mas eu não sei. Para dizer a verdade, não é uma coisa que nasça como projeto. Essa ideia de que o Glissant falava – mais do rizoma do que da raiz, daquilo que se pode juntar secretamente e unir numa só entidade –, seria mentira se eu dissesse que tenho sim isso como ambição e que portanto penso os meus livros dessa maneira. Não acontece assim. É uma coisa tão ao acaso, tão caótica, tão ausente de um eixo ou de uma bússola…
Quanto às vozes… Ajudou-me a perceber, isso sim, quando fui jornalista. O jornalismo foi importante para mim, porque entrei em contato mais íntimo com essa multiplicidade de vozes que queriam contar histórias, e isso tornou a relação com a escrita muito menos solitária. Portanto, tenho o dever de saudar esse meu tempo de jornalismo como uma escola que foi importante para ter essa relação com os outros que não têm voz.

Eu queria saber como você consegue, em meio a tantas situações difíceis que aborda nas suas obras – a questão do silenciamento, o embate de identidade do eu e do Outro, a guerra –, manter uma narrativa tão bonita? Como você trabalha com essa linguagem mantendo a beleza, a magia, e deixando tudo tão leve? Acho que é importante para a gente, no momento que estamos vivendo, algo tão obscuro, tão difícil, entender como manter essa beleza nas palavras mesmo narrando coisas que são tão difíceis, tão dolorosas.

Acho que fui conduzido por uma entrevista em que vi o ex-presidente do Vietnã, que era um poeta, Ho Chi Minh. Ele esteve preso numa prisão cruel, escura e em condição solitária, e escreveu versos de amor que depois foram publicados em livro. A pergunta que lhe fizeram foi esta: como você, naquela condição, escreveu versos que eram tão etéreos, tão ausentes de sofrimento? Ele respondeu uma coisa que ficou o lema da minha vida – ele disse: “eu desvalorizei a parede”.
Acho que isso é absolutamente necessário, porque – e agora há pouco estávamos a falar da ameaça de ditadura que pode pesar sobre o Brasil – vejo o quanto isso antecipadamente nos ocupa, o quanto essas paredes já estão lá. Nós temos que saber criar um espaço nosso, soberano, onde as coisas acontecem, onde apesar de tudo podemos ser felizes, e essa felicidade é uma arma contra a ditadura.
Eu vivi em condição de ditadura e posso vos dizer – minha família era de alguma maneira privilegiada, mas a luta contra a ditadura me trouxe talvez a parte mais importante da minha vida. Foi o momento em que, apesar de tudo, fui capaz de, juntamente com outros, construir laços solidários. É quase um pecado dizer disso, mas até fui feliz lutando contra isso.
Me parece que o discurso de quem transporta esse projeto é um projeto que se alimenta do medo, do ódio, se alimenta da incapacidade de reconhecer o outro como alguém com quem a gente possa conversar, possa trocar ideias.
Seria uma grande arrogância estar a dizer isso como se fosse um sermão, mas a experiência em Moçambique tornou bem claro: de um lado e de outro, nós diabolizamos o Outro. Parecia-nos tão legítimo fazer isso porque era uma resposta ao ódio dos outros e nós construímos, como uma defesa, uma resposta de igual dimensão. Anos depois, há uma guerra civil. Estou usando o termo guerra civil porque li uma declaração feita pelo presidente do Brasil em que ele dizia que, se um dia chegasse a ser presidente, partiria direto para uma ditadura e terminava o trabalho que o regime militar não tinha terminado – e optaria por fazer uma guerra civil em que se matariam “uns trinta mil”.
A guerra civil em Moçambique demorou dezesseis anos, morreram um milhão de pessoas, chegamos ao fim e tivemos que nos sentar à mesma mesa com os inimigos que nos matavam. E a pergunta é: valeu a pena tudo isso?
Talvez nós tivéssemos que ter uma resposta mais diferente, mais de apreciação de que não podemos corresponder a esse convite que nos é feito para que nós também passemos a odiar o Outro. 


segunda-feira, 16 de maio de 2016

As escutas de Mia Couto

Em 2014, tive o privilégio de fazer uma entrevista com o escritor Mia Couto. Foi a única que ele concedeu a um jornalista naquela rápida passagem por São Paulo – na qual, entre outros compromissos, deu uma palestra no Projeto Fronteiras do Pensamento (a quem sou grato pela oportunidade de intermediar esse encontro).
A entrevista, uma das grandes alegrias que a profissão me proporcionou, foi publicada pela revista Brasileiros em novembro daquele ano.

A seguir, a íntegra da entrevista:



As escutas de Mia Couto


Trabalhando em um novo romance, o autor premiado de Terra sonâmbula, entre outros, fala de uma África plural e revela que faz pare “da pequena tribo dos contadores de histórias”


Por Paulo Hebmüller
Revista Brasileiros nº 88 – Novembro de 2014


É das coisas humanas, demasiadamente humanas, que fala Mia Couto. Da importância, por exemplo, de os pais contarem histórias a seus filhos, gerando um espaço “produtor de nossa própria humanidade”, que “cria uma relação interpessoal e uma capacidade de estarmos juntos e de sermos outros”. Ou do alerta para o fato de que, na cacofonia de vozes da atualidade, estamos deixando de ouvir uns aos outros. Ou ainda de postular que escutar árvores e animais, aprendendo também sobre a relação simbiótica que temos com bactérias e micro-organismos em nosso corpo, são práticas que nos fariam menos presunçosos em relação aos semelhantes e ao papel de nossa espécie no planeta. O alarmante talvez seja constatar que, ditas assim, com a simplicidade que de fato possuem, essas coisas já pareçam tão inusitadas e sem lugar em nosso cotidiano.


Foto: Renato Parada
Brasileiros – Antes de falar do processo de escrita, gostaria de perguntar sobre o seu processo de escuta. De que forma o senhor começou a escutar essa oralidade, que depois transpôs para a palavra escrita?
Mia Couto – Começou em casa, quando começa tudo. Havia ali essa tentação de escutar e vivia-se em um ambiente de histórias. Meus pais, sendo imigrantes portugueses, eram contadores de histórias e sofriam daquele mal da saudade, então tinham de reinventar o país que deixaram. As primeiras grandes viagens que fiz foi por meio da escuta dessa narração. Também havia outra coisa: eu era o que ficava calado, os meus irmãos falavam. Digamos que percebi que havia quase uma repartição de funções. Cabia a mim escutar, e isso foi uma grande escola.


E quando o senhor começou a achar que era hora de transpor essas vozes – também aquelas para além da sua casa – para a escrita?
Essa África onde eu vivo é uma sociedade que escuta. As pessoas escutam os outros e na conversa há uma distribuição de tempos: o tempo da fala e o tempo da escuta, como se por turnos as pessoas soubessem o que têm de fazer. Acho que houve um momento em que eu, já jornalista, fui tentado a escrever as histórias que escutava. Essas histórias estavam tão vivas, tinham tanta força, que pediam que fossem transportadas dessa oralidade para a escrita. Mas aí percebi que a própria escrita tinha de mudar. Aquela que eu sabia e reconhecia não acomodava essa riqueza, essa coloração e, sobretudo, a música, a prosódia. Comecei a procura de uma escrita que fosse plástica e permitisse essa inundação da oralidade. Fiz um primeiro livro (Vozes Anoitecidas, 1987) já muito influenciado por um angolano chamado Luandino Vieira, que abriu portas à oralidade da sua cidade, Luanda, e li uma entrevista em que ele fazia referência à influência de João Guimarães Rosa em seu trabalho. Então, fui à procura de Guimarães Rosa. Nos meus livros seguintes, como Estórias Abensonhadas (1994), já tive esse encontro, que realmente foi importante porque havia ali uma legitimação: é possível fazer isso, é possível deixar entrar essas vozes.

Em um texto de E se Obama fosse Africano? (ensaios, 2011), o senhor conta de um ancião que lhe diz: “A diferença entre nós não está no que falamos. A diferença está em que eu sei ficar calado em português e o senhor não sabe ficar calado em nenhuma língua”. A sua escuta é também desse silêncio?
Sim, sobretudo é isso. Há uma aprendizagem que essa sociedade mais rural nos confere porque na cidade ficamos atrapalhados quando há um silêncio, e é preciso recobri-lo. Esse incômodo, em contraste, não é vivido nessas sociedades. As pessoas têm no silêncio uma espécie não de ausência, mas de uma presença. Alguma coisa está a ser falada naquele momento. Isso tem a ver com uma forte crença no mundo invisível e de espiritualidade que rodeia os viventes.

Alguns dos seus livros anteriores, especialmente de contos, têm sido publicados recentemente no Brasil. O senhor relê esses textos? E o que reconhece de si mesmo neles?
Essa é uma boa pergunta… Em princípio, não releio. Eu reescrevo tanto que aquilo fica quase saturado. Depois, preciso fazer uma ruptura e, se regresso a esses personagens, eles vão me convocar e nunca mais sair. Só faço isso quando compelido – por exemplo, por causa de reuniões em escolas que estão a estudar algum texto. Reencontro, às vezes, coisas que me parecem um bocado ingênuas, adolescentes. Havia aquela tentação inicial de querer dizer tudo num livro… Acho que houve depois um caminho de contenção. Percebo como um período em que quis dizer certa coisa, quis me confrontar com um certo mundo, e agora apetece-me fazer outras coisas. Acontece também que, às vezes, as pessoas querem me dizer algo imaginando que eu sou alguém que elas construíram na sua cabeça. A relação com a escrita faz projetar essa imagem do autor. Não quero usurpar esse território de respeito que tenho, e as pessoas têm de entender que fiz aquilo quando, digamos, era outro.

O senhor disse recentemente que estão nos contando narrativas do mundo que nos ensinam a ter medo do outro. As manifestações racistas, como as que ocorrem nos estádios de futebol, são parte dessa dificuldade de ir ao outro e entendê-lo?
Acho que sim. O racismo é um fenômeno difícil de entender porque tem vários componentes. Há vários racismos e várias maneiras de ser racista. Uma das coisas que complicam a luta contra o racismo é que a própria proposta de saída está viciada, porque se fala em raça como se fosse algo que legitimasse esse conceito e essa ideia e, portanto, se tenta provar que uma raça não é inferior e merece tanto respeito como qualquer outra. É necessário fazer esse discurso, mas ele consolida certa ideia de raça. Não é a raça que criou o racismo. É o racismo que inventa a raça. Quando jogamos todas as nossas cartas nessa lógica, fica complicado. E depois há um medo: hoje as pessoas precisam ter uma tribo, uma ideia de coletividade, de refúgio e de fortaleza. Então, é muito fácil a pessoa aderir a um discurso em que se cria outro, que é um fantasma, uma ameaça responsável pelo seu mal-estar. Se não for o racismo, é outra coisa qualquer. Paradoxalmente, a invenção desse inimigo torna a pessoa mais segura, porque não é tanto o inimigo que ela quer inventar, mas o seu grupo e aquilo que é o seu parentesco com outros.

Quando fez sua conferência no Fronteiras do Pensamento, Edgar Morin disse que a poesia da vida é mais importante que a felicidade. O senhor concorda? Acha que falta poesia no mundo?
Provavelmente a felicidade implica sempre uma poesia do mundo. Não sei o contexto dessa frase, mas dita assim parece que há uma dicotomia entre felicidade e poesia. Não vejo outra maneira de reconquistarmos um sentido de felicidade que seja pleno, que não vá por esse caminho de nos restituir um olhar poético. O olhar poético não é alguma coisa que tenha a ver com a poesia escrita ou como gênero literário, mas tem a ver com aceitarmos que essa linguagem dos sonhos é uma linguagem válida, que nos ajuda a ler o mundo.

O senhor também falou nesse encontro em memória e, em muitos livros, ela é a base para levar o leitor a diferentes caminhos. Em Quase Memória, por exemplo, Carlos Heitor Cony diz que a memória é cúmplice, não testemunha. Julian Barnes, em O Sentido de um Fim, escreve sobre como “editamos espertamente” nossas memórias, embelezando-as e ajustando-as ao longo do tempo. “Nossa vida não é a nossa vida, mas apenas a história que nós contamos da nossa vida”, ele escreve. O senhor concorda com essas visões?
É uma maneira muito feliz de dizer aquilo que tentei dizer. De fato, temos essa visão ilusória de que a memória é alguma coisa que faz parte da natureza e, portanto, tem a capacidade de reconstituir uma relação objetiva com o passado. Na verdade, sempre reescrevemos, selecionamos e reelaboramos esse tempo. Nesse sentido, o passado é a coisa mais recente que existe, porque está sendo sempre reatualizado. A veneração por uma memória que fosse capaz de trazer de volta um passado fixo e definitivo tem a ver com a ideia linear do tempo e de que temos de ter certezas do passado, como se, ao não ter essas certezas, não tivéssemos chão para construir o presente nem o futuro – o que é um conforto muito desconfortável.

E que não dá chão nenhum…
Não dá… Uma coisa de que já fujo são esses reencontros de colegas da escola secundária, etc. Aquilo é algo tristíssimo, quase uma espécie de velório antecipado de nós próprios. Cada um esquece de maneira díspar e, quando se lembra, também se percebe que cada um produziu a sua própria mentira. É melhor não ir nunca (risos).

O senhor também mencionou o perigo de entregar a máquinas, como televisão, computadores e tablets, a tarefa de contar histórias às crianças. Por que isso é perigoso e como reencontrar o tempo para contar histórias?
Acho que é perigoso porque esse contar de histórias não é simplesmente uma transmissão de alguma coisa que já está feita. No momento em que se conta a história a alguém, não há ali uma escuta mecânica, mas sim qualquer coisa que cria, sobretudo, a construção de uma relação entre pessoas e, obviamente, a máquina não pode fazer isso. A construção dessa relação interpessoal e do apetite por ela marca: é como se a história existisse só para criar essa rede, essa capacidade de estarmos juntos, de escutarmos, de sermos outros. Claro, há um momento em que a máquina pode estar ligada e cumpre a função de “anestesiar” a criança, mas falo é da ausência do resto. A máquina passa a ser a exclusiva ligação com a fantasia, e a criança é colocada desde o princípio só como consumidora de uma imagem que já está feita em definitivo e ela pode voltar e ver da mesma maneira mil vezes. Mas quando ela pede ao pai, à mãe ou a alguém que lhe conte a história, ela nunca é repetida completamente. Há ali uma recriação, e a criança percebe que esse momento a torna também criadora.

Outra característica da sua obra é a presença dos mortos em meio aos vivos – para citar apenas um caso, há a comunicação entre Marianinho e seu avô em Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, no qual o senhor fala, entre outras coisas, em “falecido com dificuldade de transitação, encravado na fronteira entre os mundos” e em “fantasmas mal morridos”. Como é essa relação entre vivos e mortos nesse mundo que descreve?
É uma relação marcada pela ideia de um tempo circular, em que os mortos não chegam nunca a morrer. Mas acho que em nenhuma cultura e em nenhuma religião os mortos morrem completamente, portanto isso não é uma coisa exclusiva da África. Provavelmente, a diferença da cosmogonia africana é que esses mortos não só não morrem como estão presentes no comando da vida e no comando do mundo. Essa relação nem sequer é mediada por uma força divina ou outra, porque esses mortos são os próprios deuses. Então, não temos de usar um discurso codificado ou uma reza para enviar uma mensagem para um rosto ou uma entidade que não conhecemos. Conversa-se com os mortos, ou seja, conversa-se com os deuses. Quando se fala do lugar da escrita dos africanos e se compara automaticamente com os latino-americanos nos termos do “realismo mágico” – não gosto muito dessa classificação –, a diferença é referida sobretudo em relação ao lugar dos mortos. Na América Latina, o discurso é muito católico – revisitado, reconstruído, etc. –, mas na África não é tanto isso.

Em relação à dimensão do sagrado, do divino e do religioso, também muito presente na sua obra, o senhor se define como “ateu não praticante”. Como se aproxima dessa dimensão?
É um percurso que estou a fazer interiormente. Meu pai era ateu e minha mãe, católica muito pouco praticante. Eu militei na causa marxista, portanto com fundamento no materialismo histórico e dialético – uma filosofia que não dava espaço a esse tipo de crença. Mas percebi que teria de estar disponível e aberto a fazer essa viagem e não ter uma relação de arrogância em que na partida já saberia o que estava ou não do lado do não visível. Portanto, me defino um ateu não praticante do ponto de vista de que não parto com o juízo feito para as coisas. Estou disponível e gosto de fazer essa viagem, mas não é que tenha crença num ou noutro lado. Apetece-me ter crenças que são imediatas e que me ajudam a cumprir certo momento.

É uma espécie de ponte para o entendimento daquele contexto?
É uma espécie de nomadismo religioso em que monto uma tenda, seja no deserto, seja no meio do oceano.

Religiosidade e outros traços culturais e históricos aproximam nossos países, mas a relação entre Brasil e África tradicionalmente não é de proximidade. Essa distância, especialmente em relação aos países africanos de língua portuguesa, está diminuindo?
Do setor que mais conheço, o das trocas literárias, o Brasil hoje está muito mais aberto a receber e publicar autores africanos. Recordo-me que há uns 20 anos nem sequer se pensava em publicar aqui um livro moçambicano. Portanto, isso mudou. Mas a recíproca não é verdadeira. Os países africanos não conhecem quase nada do que está a acontecer na escrita literária do Brasil, e Portugal desconhece também quase completamente. Acho que a razão para isso tem a ver com a dinâmica das editoras. Esse assunto foi entregue ao mercado, e os governos praticamente desistiram de ter algum papel. Como a dinâmica do mercado no Brasil é muito maior do que em qualquer país de língua portuguesa, obviamente os brasileiros conhecem mais o que se faz do outro lado.

Entre as suas identidades está a de biólogo, e o senhor já classificou a biologia como uma “indisciplina científica”. Como essa identidade entra em sua literatura?
De uma forma que é absolutamente vital. Está onipresente aquilo que a biologia me entrega como uma linguagem e uma maneira de escutar. A biologia prolongou esse apetite que tenho de escutar o mundo e de perceber que há ali vozes que tinham sido anuladas por certa visão antropocêntrica de que somos nós os únicos que temos alguma coisa a dizer. A maneira como abracei a biologia foi nessa procura de perceber linguagens e aprender códigos. Hoje, sem ser de uma maneira metafórica, escuto a árvore, a planta, o bicho, porque de fato todas essas entidades querem dizer qualquer coisa além, não é? E por isso assumem cores e cheiros e diferenças de forma que me agrada muito escutar.

Tudo isso tem uma presença fortíssima no seu romance A Confissão da Leoa.
Sim, até o ponto limite de se perceber que a diferença de identidade entre nós e essas outras criaturas é mais tênue do que se pode pensar.

A literatura pode ser uma ponte para nos ajudar a refazer esses encontros também do ponto de vista da natureza?
Sem dúvida. Assim como a biologia, porque é também uma narrativa que tem feito descobertas que deviam ser mais conhecidas nessa educação para nos ajudar a descentrar-nos de nós próprios. Por exemplo, as recentes descobertas genéticas que mostram o quanto temos de não humano, o quanto de nosso material genético não é exatamente humano, o quanto da nossa composição celular e da constituição física devemos a outros que estão dentro de nós, e que não são tão outros assim, porque, se os tirássemos, morreríamos em segundos… Dizemos que essas bactérias e esse mundo de micro-organismos são meros hospedeiros que estão dentro de nós. Mas percebermos que eles não são simplesmente hospedeiros, são de tal maneira simbióticos que nós somos eles, é uma espécie de cambalhota e de reviravolta do ponto de vista quase filosófico na maneira que apreendemos o mundo. Isso é alguma coisa que faz muito bem a qualquer racista (risos).

Nos ajudaria a ser mais humildes, pelo menos…
Sim, é uma aprendizagem de humildade. O discurso mais verde e mais ecologista aponta para a responsabilidade do homem como grande espécie condutora de tudo isso. Porém, há qualquer coisa que é mais radical que isso: perceber que só reencontraremos esse papel se vermos que somos apenas uma parte.

Por que a escolha por esse caminho chamado literatura?
Não escolhi a literatura, escolhi a escrita, que é provavelmente outra coisa. A construção que fizeram da escrita me parece que a complicou muito, a intelectualizou e construiu um edifício com vários andares e hierarquias. Quando começamos a escrever e a querer usar a escrita do ponto de vista criativo, estamos muito longe da escolha dessa grande construção e dessa grande estrutura que é a literatura. Eu sou salvo por ser várias coisas, e sempre que tenho de enfrentar “a” literatura, que depois se manifesta nessas coisas muito solenes dos congressos e das conferências, puxo logo o chapéu de biólogo… Esse universo me apraz, mas na maior parte das vezes é uma grande chatice. Estão ali os grandes estudiosos, os filósofos, os próprios escritores que, algumas vezes, dão demasiada importância a si mesmos e àquilo que fazem, e estou sempre a pensar qual o momento que tenho para escapar (risos). Esse discurso parece uma arrogância disfarçada de humildade, mas na verdade não sinto que pertenço a essa construção. Sou mais de uma pequena tribo que é a dos contadores de histórias, e podem fazer isso mesmo sem usarem da escrita.